domingo, 12 de dezembro de 2010

Diário de Bordo - Tiago Mi

Diário de Bordo

“São gente de amor e prestativos para tudo, e certifico as Vossas Altezas que em todo o mundo creio que não há melhor gente nem melhor terra; eles amam a seus próximos como a si mesmos, e tem a fala mais doce do mundo, e mansa, e sempre com sorriso. Eles andam desnudos, homens e mulheres, como suas mães os pariram, mas crêem Vossas Altezas que entre si têm costumes muito bons, e um rei muito maravilhoso. Em todas estas ilhas me parece que todos os homens são felizes com uma mulher. Nem se pode entender se têm bens próprios, pois me pareceu ver que aquilo que um tinha, todos faziam parte, em especial as comidas. Nestas ilhas não há homens monstruosos como muitos pensavam, mas sim, muita gente de muita beleza. Posso afirmar a Sua Alteza que lhe darão todo o ouro que quiser; especiarias e algodão o quanto carregar, e o Senhor a vende como quiser, e levará o quanto mandar carregar, e escravos o quanto mandar carregar, e outras mil coisas, o quanto puder levar.”
Estes são trechos do Diário de Bordo de Cristóvão Colombo e de uma carta que mandou ao Rei da Espanha e sua realeza quando chegou nas magníficas terras que hoje chamamos de América do Sul. Terras estas cheias de um povo que vivia livre de armas, de guerras, em harmonia, com uma população estimada em 90 milhões de habitantes espalhados em diversas etnias por todo o continente. Hoje, não passam de 3 milhões de sobreviventes. A América do Sul tem um histórico de opressão e violência por parte de quem aqui chegou com o objetivo de extrair as riquezas naturais das terras mais ricas do globo. A pólvora e a ambição falaram mais alto que a harmonia e a sabedoria de se viver, de bem viver. O ouro foi mais valioso que as vidas desses homens e mulheres. A história “oficial” nos dá a versão dos que venceram na força, a história real do decorrer dos nossos 500 anos nos explica o porquê de 47% dos nossos jovens viverem na miséria, o porquê da violência da qual somos refém. Miséria, presídios lotados, fome, falta de moradia digna, são conseqüências de um passado recente e de um presente camuflado. O conhecimento nos torna mais fortes e preparados para escolher o que quer que seja, e pra brigar pelo o que acreditamos. A história real a gente não aprende na escola por que um povo com conhecimento nunca aceitaria a realidade de um país como o nosso, do nosso Estado, do nosso município. Como diz o poeta, “a sabedoria do povo daqui é o medo dos homens de lá”.

Um abraço,
Tiago Mi


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Locomotiva

A Locomotiva



A locomotiva do progresso segue rápida e com força. Há aproximadamente 500 anos ela chegou por aqui. Naquele tempo existia, estima-se, uma população de 90 milhões de pessoas. Foram atropeladas. Os índios não tinham muito interesse em subir na locomotiva. Todo aquele luxo não fazia sentido. De lá de dentro não podiam pisar a terra, sentir o sol, as flores, viver os rios, sentir a chuva. Mas não tiveram escolha. Esse trem desgovernado passou por cima de tudo o que havia pela frente.
Alguns anos mais tarde a locomotiva precisou ser empurrada. Foram até a África buscar forças para fazer esse serviço. E fizeram, muito bem feito. A locomotiva nunca havia andado tão depressa. E quanto mais ela acelerava, mais era necessário acelerar. Não paravam de buscar gentes africanas, fortes, guerreiras para fazer funcionar a máquina mais rica e poderosa que o mundo jamais havia presenciado. No período da Independência do Brasil, metade da nossa população era formada por esses negros escravos que se moviam movendo a locomotiva, a base de chicotadas, enquanto um outro tanto de brasileiros vivia correndo, pelo lado de fora, pegando as migalhas que caiam pelas janelas e sobrevivendo com o sonho de um dia sentar do lado de dentro. Ilusão. Não há um ser humano, humano, pilotando esse trem.
O tempo passou. Os chicotes, em teoria, foram extintos. Mas ainda são as nossas gentes que empurram e fazem correr a oitava maior locomotiva do planeta. Pra essa gente não se dão oportunidades de subir no trem. Quem o empurraria? Nem se permite consciência a esse povo. Quem está dentro tem medo da revolta dos excluídos do lado de fora. Dessa forma a gente percebe que o nosso presente é só uma continuação sem grandes mudanças do nosso passado.
O progresso é uma locomotiva guiada pela ganância, desgovernada, sem alma, sem coração, sem piedade, sem vida, sem consciência, sem escadas, sem escolhas.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

8 de Setembro


Era a mais entusiasmada da turma. Sempre chegou mais cedo. Ajudava a organizar a sala, entregar aos colegas as letras de músicas, flautas, ou qualquer outro material a ser usado nas aulas de coral que freqüentava todos os sábados no colégio em meio à comunidade num morro da capital. No final, era a responsável por guardar tudo e ajeitar o espaço para as próximas atividades. Mas não fazia tudo sozinha. Tinha carisma perante os colegas que a acompanhavam nas tarefas que se encarregou por livre e espontânea vontade.
Juliana chegou à comunidade, uma favela num morro do centro da capital, com a mãe e os irmãos havia alguns anos. Vieram do interior. Lá, as muitas terras nas mãos de poucos donos cuja grande produtividade de produtos agrícolas é conseguida a custos baixos através da mão de obra barata, não ofereciam empregos a todos, muito menos qualidade de vida. O município não era inteligente para gerar oportunidades e perspectivas melhores para a mãe e seus filhos. Acreditavam que na capital teriam melhor sorte.
Nas aulas de coral e flauta aos sábados, Juliana, de 12 anos, sempre acompanhada de seu irmão mais novo, Daniel, se sentia a vontade e acreditava no que ouvia. Sabia que ali era bem-vinda. Tinha um carinho imenso pelo professor e sua equipe que, conscientes dos problemas que afetam aquelas crianças, estavam dispostos a fazer com que jovens sem perspectivas se tornassem cidadãos brigadores de seus direitos, tomassem a rédea de suas vidas e lutassem pelo que acreditavam.
O dia 8 de setembro é uma data especial na comunidade. Aquela gente pára para as festas e a procissão em homenagem ao dia de sua padroeira. Por coincidência é o mesmo dia do aniversário do professor de música do coral, que há alguns meses compartilhava ali bons momentos com a população. Naquele tempo muitas coisas foram feitas com a parceria escola e coral de música. A comunidade que antes via o professor com desconfiança passou a confiar em seu trabalho e admirar aquele jovem que ia até eles despretensioso compartilhar seus conhecimentos.
No dia 8 de setembro, junto à homenagem à padroeira, homenagearam também o professor. Foi um dos dias mais importantes de sua vida. Juliana lhe deu um cartaz desenhado e assinado por todos seus alunos. E depois, um presente em particular. Junto da mãe, Juliana comprou uma pequena imagem de Nossa Senhora e com um cartão, entregou ao professor desejando-lhe força para continuar seu trabalho e que Nossa Senhora o iluminasse por toda a vida.
Na semana seguinte Juliana não apareceu na aula de música. Ela nunca havia faltado. Logo a notícia se espalhou. Juliana e sua família foram expulsas do morro. Seu irmão mais velho devia dinheiro a traficantes que entraram em sua casa, destruíram quase tudo e levaram alguns objetos prometendo voltar. À mãe da menina não restava outra alternativa a não ser fugir com seus filhos.
Segundo a polícia nada podia ser feito. Uma minoria da favela envolta a grande maioria de trabalhadores e gente de bem consegue fazer um estrago gigantesco. Minoria esta que detém o poder onde o poder público não exerce suas responsabilidades. A polícia que atende ao chamado de uma casa onde um quadro de milhões de dólares é roubado, não se prestou a dar segurança e reaver os pertences de Juliana e sua mãe.
O Brasil é dominado por minorias. São os banqueiros, grandes agropecuários e grandes empresas nacionais e multinacionais os financiadores das campanhas de deputados, senadores, prefeitos, vereadores, governadores, presidentes... A quem irão atender ao criarem leis ou fazerem justiça, os nossos excelentíssimos governantes? À Juliana e sua família resta aprender a importante lição do valor de seu voto, trocado, como vemos em todos os lugares, por cestas básicas, favores, combustíveis ou empregos. Muitos dos nossos governantes estão lá financiados por grandes empresas e eleitos pela compra de votos. Não é de seus interesses informar e educar esses eleitores. Muito menos promover políticas públicas que gerem censo crítico na população. Quanto mais conscientes forem as pessoas, mais difícil será a conquista desses votos.
Aos que tiveram a oportunidade de aprender essa lição, resta a opção de deixar como está, ou de fazer algo para reverter. As conseqüências do desinteresse por uma educação conscientizadora, de comida e moradia digna para todos e principalmente de governantes de qualidade, afetam a todos nós. Num país em que muitas vezes se opta por votar no “menos pior” por falta de escolha, resta acreditar na união das pessoas conscientes. Trata-se de uma força e um poder sem igual que precisamos aprender a usar.
Aos colegas de Juliana fica a saudade. Violências são freqüentes na vida daquelas crianças, tornando, infelizmente, esse tipo de acontecimento, natural. Ao professor ficam o sentimento de impotência, as lembranças daquele sorriso sincero e o presente que é guardado como o objeto mais valioso que possui.

domingo, 4 de julho de 2010

Mudança no Código Florestal Brasileiro

Em breve a comissão parlamentar especial irá dar o seu voto – a favor das florestas ou ao agronegócio.

Com a crescente demanda popular pela proteção de nossas florestas, a bancada ruralista está pressionando os líderes partidários e aumentando os seus esforços para acabar com o nosso Código Florestal.

A petição pela defesa do código e proteção ambiental já tem mais de 130.000 assinaturas mas precisamos de ainda mais para conseguir pressionar nossos deputados. Está na hora de falarmos mais alto do que os interesses dos grandes agronegócios e mostrar ao congresso que, em ano de eleição, eles devem ouvir o povo brasileiro. Assine abaixo e encaminhe para todos que você conhece. Vamos conseguir 200.000 assinaturas para proteger as florestas!

http://www.avaaz.org/po/salve_codigo_florestal/98.php?CLICK_TF_TRACK

Enquanto o mundo todo está discutindo como preservar nossas florestas para futuras gerações, um grupo de deputados está fazendo exatamente o contrário: estão tentando entregar as nossas florestas para os responsáveis pela devastação e desmatamento do Centro-Oeste e da Amazônia.

As propostas absurdas incluem:

* Reduzir ou até mesmo elimintar a Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente como margens de rios e lagoas, encostas e topos de morro, para certas propriedades
* Anistia total aos crimes ambientais, sem tornar o reflorestamento da área uma obrigação
* Transferir a legislação ambiental para o nível estatal, removendo o controle federal

Essa não é uma escolha entre ambientalismo e desenvolvimento, um estudo recente mostra que o Brasil ainda tem 100 milhões de hectares de terra disponíveis para a agricultura, sem ter que desmatar um único hectare da Amazônia. A proteção das floretas e comunidades rurais depende do Código Florestal, assim como a prevenção das mudanças climáticas e a luta contra a desigualdade do campo. Assine agora no link abaixo!

http://www.avaaz.org/po/salve_codigo_florestal/98.php?CLICK_TF_TRACK

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Favor da Maré



Somos 6 bilhões de seres humanos vivendo no planeta. Bilhões de formas diferentes de ver e entender a vida. Culturas distintas, formas de viver, de se relacionar, de rezar, meditar, cantar, dançar, se expressar, de pensar. Uma riqueza humana infinita. Uma capacidade imensa em criar. A criatividade seja talvez o nosso maior dom. Fazemos arte, fazemos amor, construímos cidades, fazemos tecnologia. Conseguimos nos transportar pelos oceanos, pelos céus, pelas terras. Nos comunicamos daqui com o resto do mundo. Somos 6 bilhões de seres humanos vivendo no planeta. Quatro bilhões não têm acesso a toda essa beleza. Dois terços da população vivem na miséria, à margem de toda a nossa criação. A desigualdade social, a falta de oportunidades, a imposição de culturas sobre outras, a ideologia da felicidade através do consumo, a violência, a busca incessante pelo lucro, a riqueza, a pobreza, são todas a mesma face de uma mesma moeda. Um é causa e conseqüência do outro. Vivemos num ciclo vicioso. Em pequenas ações, nem percebemos que fazemos parte desse ciclo e que colaboramos com a “felicidade” material de um terço das pessoas, e transportamos todas as conseqüências desse nosso jeito de pensar e entender a vida à maioria de nós. Nossos filhos morrem assaltados, nossos filhos morrem assaltando. Nossos filhos vendem drogas, nossos filhos se perdem nelas. Toda uma geração de crianças e adolescentes vive sem estrutura, sem tecnologia, sem acesso ao conhecimento e às maravilhas das quais fomos e somos capazes de criar. Toda a nossa criação, o dinheiro que geramos, os conhecimentos que adquirimos estão nas mãos de poucos. E não é à toa. Não é a evolução natural da espécie. Há por traz de tudo isso o interesse de alguns. Porém, nunca na história da humanidade tivemos tantas possibilidades de resolver os problemas causados pelas injustiças de séculos, como temos hoje. Vivemos num momento histórico em que somos capazes de alimentar a fome do “bem viver” do planeta. Pessoas como Mahatma Gandhi e outras milhões de pessoas comuns espalhadas por aqui e pelo mundo dedicam suas vidas para assegurar direitos, combater as injustiças e gerar dignidade. Essa massa de verdadeira solidariedade luta contra a maré. Vamos propor um outro mundo, vamos fazer essa luta ser a maré.

Um abraço,
Tiago Mi

quarta-feira, 5 de maio de 2010

                                                                            
Na Lagoa







Descobrimento?








Estima-se uma população de 90 milhões de habitantes. Para eles, o mundo é um luxo de se viver, tão rico de aves, de peixes, de raízes, de frutos, de flores, de sementes, que podia dar as alegrias de caçar, de pescar, de plantar e colher a quanta gente aqui viesse ter. Na sua concepção sábia e singela, a vida é dádiva de deuses bons, que lhes doaram esplêndidos corpos, bons de andar, de correr, de nadar, de dançar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes e suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou melódicas, cantos graves e agudos e toda a sorte de sons que há. Narizes competentíssimos para fungar e cheirar catingas e odores. Bocas magníficas de degustar comidas doces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia dar. E, sobretudo, sexo opostos e complementares, feitos para as alegrias do amor.
É assim que via o mundo, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, essas pessoas espalhados por toda a América do Sul, denominada por Índios pelos colonizadores espanhóis e portugueses quando aqui chegaram um pouco antes do ano de 1.500. 500 anos depois, encontramos espalhados por nosso continente uma pequena fração desses povos: 3 milhões de sobreviventes. Custando uma quinta parte do preço de um negro importado, o índio cativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus deixaram de fazer qualquer trabalho manual. Toda tarefa cansativa, fora do eito privilegiado da economia de exportação, que cabia aos negros, recaía sobre o índio.
Na chegada dos europeus, o que era a terra de todos os povos que viviam nas Américas, passou a ser da Coroa portuguesa ou espanhola, que a doava a quem fosse conveniente. Assim, arrancavam matérias-primas, tal como o Pau-Brasil, e vendiam-nas para diferentes partes do mundo. Quem trabalhava na extração, produção de cana de açúcar, café, mineração, eram os índios escravizados e mais tarde os negros. A mão de obra escrava e o custo zero das terras davam um lucro exorbitante aos colonizadores. Foi assim que países como a Inglaterra, Holanda e mais tarde Estados Unidos, se enriqueceram. Através das nossas águas, farta produção de alimentos, matéria-prima, ouro e prata e mão de obra escrava. Foi através da morte de milhões de índios e negros, que o “primeiro mundo” se tornou rico. Aprendemos nas escolas que em 1.500 os portugueses descobriram o Brasil. Em 1.500, os portugueses invadiram o Brasil. Escravizaram um povo que vivia em harmonia entre si e com a natureza. Dizimaram essa população, roubaram suas terras, suas matas, seus rios, sua comida. Acabaram com sua cultura e sabedoria. A história “oficial” é contada pelos “vencedores”. A história real fica escondida da gente. Como escreveu Eduardo Galeano: “...a história do subdesenvolvimento da América Latina integra a história do desenvolvimento do capitalismo mundial (...) nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neocolonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno”.
Um abraço,
Tiago Mi


segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Quem Interessa?





O jovem músico de vinte e poucos anos aceitou o convite. A responsabilidade era grande. Ele não tinha formação técnica musical e pedagógica, mas era o único disposto a subir o morro todos os sábados, entrar na favela e montar um coral com crianças e adolescentes de um pequeno colégio no meio da comunidade.
No primeiro dia de aula, se surpreendeu com a atenção, percepção e com o carinho que aqueles vinte e poucos alunos o receberam.
Se apresentou, conversou um pouco e escreveu no quadro negro com uma das poucas pontas gastas de giz que havia: “´Nós devemos ser a mudança que desejamos ver no mundo.’ Mahatma Gandhi.” Em seguida, perguntou: O que nós desejamos ver no mundo? Choveram respostas: natureza, paz, amor, justiça, um mundo sem drogas, sem violência, onde a gente viva bem, solidário... Depois de muitas palavras de um futuro utópico, o professor partiu para a parte mais difícil do exercício e fez a pergunta: “O que é necessário para que esse mundo exista?” Ingenuamente, havia preparado todo um discurso para tentar passar o que Gandhi quis dizer. Porém, no instante em que fez a pergunta, um garoto no fundo da sala ergueu a mão: “A gente precisa começar pela gente!”. Pronto! Não precisava dizer mais nada. O menino João de 13 anos sabia profundamente o que aquilo significava. João vem de uma família de dez irmãos criados pela avó, num barraco de dois cômodos sem banheiro. Na época, já eram 8 os sobreviventes. Dois haviam sido mortos. Um por engano. Muito parecido com o irmão mais velho chefe do tráfico, foi confundido. Em seguida, os traficantes do morro ao lado que pretendiam dominar a boca, mataram o “certo”. Mas quem assumiu o comércio foi um outro irmão de Jorge, dois anos mais velho. A pressão era grande. A “firma” precisava de gente pra trabalhar e defender o poder e o pão de cada dia. João se dividia entre o “córre” e as aulas de coral e violão aos sábados, únicos lugares em que era valorizado. A mente e o coração de João estavam divididos. Ele sonhava com um mundo sem violência, sem drogas, e se via entrando num mundo oposto que sustentava seus desejos e necessidades e o forçava a participar. Olhando de fora parece ser fácil a escolha. São nove os seres humanos que sobrevivem com a fortuna que a avó, descendente de escravos, recebe de aposentadoria. João tentou arranjar emprego. O fato de morar na favela não o ajudava, muito menos seus conhecimentos em português, matemática e informática que a sexta série do ensino público brasileiro oferece. Apesar de saber que a construção do mundo baseado no “bem viver” precisa dele, o mundo que construímos, que também precisa de João, se mantém forte.
Essa é mais uma, dentre milhares de histórias reais do dia-a-dia de uma das maiores economias do planeta. Por onde anda essa fortuna? Instituições internacionais como FMI e Banco Mundial, tratam o Brasil como um país em desenvolvimento. Qual desenvolvimento? Economicamente, nossa nação começa a dialogar com certa autonomia frente às grandes potencias mundiais. Socialmente, produz os piores problemas que afetam a todos, principalmente a população cuja presença do poder público é mínima. Grande parte de nossas crianças estão fadadas a aprender sobre a vida apenas com a vida. Algumas delas aprendem somente a sobreviver. A quem interessa um país em desenvolvimento econômico sem o desenvolvimento de seu povo? Por que, ao invés de criarmos funcionários para o mercado de trabalho e mão de obra barata, não formamos cidadãos que passem a questionar sobre essa forma de viver? A princípio, seria apenas uma luta para permitir que um maior número de pessoas coma mais, more com dignidade e eduque-se. A partir desses fundamentos básicos, muitos outros problemas se resolveriam sozinhos, e aí sim, poderíamos começar a dizer que o Brasil é um país em desenvolvimento. Porque uma nação saudável se faz de indivíduos saudáveis.

Um abraço,
Tiago Mi

Maravilha!




Maravilha!

Com um lindo sorriso e um brilho nos olhos a jovem menina perguntou esperançosa: “Voltou pra ficar?”. “Seu Deus quiser!”, foi a resposta do jovem professor.
Há quem diga que o que aconteceu foi perda de tempo. Mas quem conhece um pouco do ser humano sabe que é fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa a música, a criatividade, a disciplina, a atenção, o carinho, o afeto, o respeito, a auto-estima, a dignidade, o incentivo à arte, um trabalho que movimente o corpo, a mente e o espírito da criança. E quem conhece um pouco de sociedade, sabe da importância da cultura, da união das pessoas em prol de um objetivo em comum, do lazer, do trabalho, da arte, da música, da expressão. Não é apenas a busca pelo dinheiro e pelo lucro que move as pessoas. Não é apenas o movimento econômico que deve mover os interesses de um município. O ser humano se constitui de aspectos muito mais subjetivos que objetivos.
Aquela menina participou de um movimento cultural grandioso que engloba todas as qualidades citadas acima. O maior do nosso país, do qual São Miguel Arcanjo é referência na região e possui um potencial gigantesco para crescer. Juntos dela fizeram parte centenas de são-miguelenses em diversos blocos carnavalescos, escolas de samba, clube, o que atraiu milhares de pessoas para prestigiar, se divertir e fazer parte do Carnaval 2010 de São Miguel Arcanjo. Tudo começou com a escolha da Musa do Carnaval. Nu`Interessa, Bloco das 7, Brócão, Bloco da Tia Marta, Bloco do Coreto, QG do Barracão, dentre outros,  tiveram cada um, uma centena de foliões fazendo o carnaval. A Ponte Preta e a Zolivre, com mais de 120 integrantes, com suas baterias, alegorias, fantasias, sambas-enredo, movimentaram compositores, desenhistas, músicos, batuqueiros, jovens dançarinas, artista plástico, costureiras, foliões e jovens e adultos que se movimentaram para construir tudo isso. E ainda, uma bateria de escola de samba formada por 40 jovens de 6 a 14 anos chamada de Mirim Livre do CIS Curumim encerrou em grande estilo essa festa. Algo que contou com a ajuda de empresas como o Supermercado Almeida, Supermercado MH, Viva Morena Calçados, Casa da Praça, Auto Posto Marchesin, Sítio MC, Rádio Aliança FM e Zolivre. Isso mostra que além de toda movimentação popular e de qualidades fundamentais para uma sociedade saudável, existe também em nosso carnaval, consciência. Consciência de que somente movimentando e integrando crianças de forma saudável à cultura e à sociedade, conseguiremos um “bem viver” para todos nós. É claro que para isso é preciso organização de quem está interessado em fazer o carnaval e incentivo e investimento por parte do poder público, que é o seu dever.
Mas o mais importante é que o sorriso daquela menina algumas semanas depois em que desfilou com a bateria Mirim Livre e que representa o sorriso de outros 40 jovens, dá a certeza de que teremos um futuro mais digno. Isso porque esse sorriso tem por traz a força de vontade, a atenção, a disciplina, o carinho, o interesse, o respeito, a inteligência, a capacidade, a alegria, a solidariedade, a esperança e a vontade de querer mais, que demonstraram ter essas 40 pequenas almas nas aulas, ensaios e no desfile. Se dermos espaço e oportunidades para essa turma, São Miguel Arcanjo, o Brasil e o Planeta estarão em boas mãos.

Um abraço,
Tiago Mi






Punição, Não Falta

Cresceu na Cidade de Deus, favela do Rio de Janeiro. Naquela realidade que vimos no filme que leva esse nome. Sua tia Celestina lia histórias do mundo ao menino quando ainda não sabia ler. Outros estímulos para a arte vieram de dona Marília Freitas e dona Sônia Formiga, professoras do primário. O incentivo gerou frutos. Paulo cursou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais tarde, o que escreveu foi traduzido em 14 ou 15 línguas. Livro que virou um dos filmes de maior sucesso do cinema brasileiro e segundo um importante jornal norte-americano, está entre os 10 melhores filmes da história: Cidade de Deus.

Em entrevista à revista Caros Amigos de abril de 2010, o escritor Paulo Lins que, da favela da Cidade de Deus ganhou o mundo, fala com a consciência de quem conhece o contra ponto, a outra face da sociedade. Das quatro páginas de sua entrevista, segue um pequeno trecho do que, segundo ele, acontece na cidade Maravilhosa:

“... Sérgio Cabral (Governador do Rio de janeiro) fala, por exemplo: ‘a polícia sobe na favela e tem que trocar tiro mesmo, porque o traficante não recebe a polícia com flores e sim com tiros, então a polícia responde à altura’. Com essa teoria de porta de gabaré, talvez esse tenha sido o governo que mais matou nesse Estado. A polícia é recebida com tiro porque o Estado deixa as armas e munição chegarem lá pela corrupção. E as drogas também. Drogas nem tanto, porque as drogas não são oficiais como as armas – não há fábricas de armas clandestinas. Então são os empresários do setor e os governos que são os responsáveis pelas armas que estão matando essas crianças, esses meninos semianalfabetos, desnutridos, sem cultura, sem educação, com fome e com raiva. A polícia do Sérgio Cabral matou tanto que quatro desembargadores, cinco juízes, músicos, artistas, professores, jornalistas, além de diversas entidades como a OAB, Tortura Nunca Mais, MST e pessoas como Marcelo Yuka, Letícia Sabatella, Lobão, Beth Carvalho, Nilo Batista, Carlos Latuff, Cecília Coimbra, Vera Malaguti e várias outras assinaram um manifesto contra essa política assassina do início do governo dele. Eu também assinei. Não é fácil dar tiro na polícia, tem que ter peito. Para o cara sentar o dedo na polícia, ele está dando um tiro em toda a sociedade. Então, quando ele atira num policial, ele está atirando no presidente da República, nos deputados e senadores, no governador; nas pessoas que discriminam, está atirando nos racistas, nos corruptos, nos ladrões da política, nessa gente que só pensa em lucro. Enfim, ele está atirando no que a gente tem de pior. Está atirando naquilo que o faz existir”.

Como diz uma Assistente Social: “Pra esse povo falta tudo: educação, alimentação, moradia digna, atenção, estrutura familiar, saúde, dignidade... Punição, não falta”.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010



Carnaval 2010.



O Carnaval de São Miguel Arcanjo atraiu nos cinco dias de festas milhares de pessoas às ruas de concentração e desfiles das Escolas de Samba e blocos Carnavalescos. O Bloco Nu´Interessa reuniu na sexta e no domingo de carnaval centenas de pessoas com suas cantoras, marchinhas de carnaval e o batuque que é tradicional em nossa cidade, além de animar junto com a rapaziada da Zolivre o bar do Clube Bernardes Júnior as 4 noites de carnaval. O Bloco das 7 animou as ruas da cidade durante 4 dias. Foram aproximadamente 100 camisetas vendidas, mais a galera que ía se juntando ao batuque e a animação da rapaziada. O mesmo número de camisetas do Brócão que animou as noites de sábado e segunda, quando centenas de foliões se uniram à festa no desfile em frente ao Clube. O tradicional Bloco da Tia Marta na Lanchonete da Marta e o QG do Barracão, na Casa da Praça, fizeram a festa da tarde de domingo. A Unidos da Ponte Preta completando 21 anos de história mostrou a sua raça nos desfiles de sábado e segunda em São Miguel Arcanjo e no domingo em Tatuí. E ainda mais de 120 integrantes desfilaram com suas belas fantasias e alegorias representando o tema “Nossa União” da Zolivre 2010. O Clube Bernardes Júnior muito bem decorado, trabalhado e organizado, encheu as 4 noites de festa com a banda no palco principal e o tradicional batuque do bar. Logo depois do baile, aproximadamente 100 sobreviventes foram batucando e formaram o bloco do Coreto na Praça da Matriz. Pra fechar com chave de ouro, 40 jovens de 6 a 14 anos do CIS Curumim desfilaram tocando bateria de carnaval nas ruas da Praça da Matriz formando a Escola de Samba Mirim Livre. Parceria entre o CIS Curumim, Escola de Samba Zolivre e a Comissão Organizadora do Carnaval na construção do projeto “Faz Parte Desse Nosso Carnaval”.
O carnaval é movido por cultura, arte, pessoas. Compositores de sambas-enredos, desenhistas de fantasias, costureiras, artistas plásticos para a confecção dos carros alegóricos, músicos, batuqueiros e mágicos da arte da alegria. Nossas pousadas ficam lotadas, nossa economia cresce, nosso povo se movimenta pra fazer o carnaval.
Há muita gente envolvida na construção do carnaval. Há muita gente pulando carnaval. Nossa cidade gosta disso e vive o carnaval. A todos os blocos, Escolas de Samba, foliões e pessoas que trabalharam para que tudo isso acontecesse, meus parabéns. E aqui fica um lembrete: é dever do Estado fomentar a cultura. E não há nada mais cultural para o nosso povo do que o carnaval.


Um abraço,
Tiago Mi.