quarta-feira, 5 de maio de 2010

                                                                            
Na Lagoa







Descobrimento?








Estima-se uma população de 90 milhões de habitantes. Para eles, o mundo é um luxo de se viver, tão rico de aves, de peixes, de raízes, de frutos, de flores, de sementes, que podia dar as alegrias de caçar, de pescar, de plantar e colher a quanta gente aqui viesse ter. Na sua concepção sábia e singela, a vida é dádiva de deuses bons, que lhes doaram esplêndidos corpos, bons de andar, de correr, de nadar, de dançar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes e suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou melódicas, cantos graves e agudos e toda a sorte de sons que há. Narizes competentíssimos para fungar e cheirar catingas e odores. Bocas magníficas de degustar comidas doces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia dar. E, sobretudo, sexo opostos e complementares, feitos para as alegrias do amor.
É assim que via o mundo, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, essas pessoas espalhados por toda a América do Sul, denominada por Índios pelos colonizadores espanhóis e portugueses quando aqui chegaram um pouco antes do ano de 1.500. 500 anos depois, encontramos espalhados por nosso continente uma pequena fração desses povos: 3 milhões de sobreviventes. Custando uma quinta parte do preço de um negro importado, o índio cativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus deixaram de fazer qualquer trabalho manual. Toda tarefa cansativa, fora do eito privilegiado da economia de exportação, que cabia aos negros, recaía sobre o índio.
Na chegada dos europeus, o que era a terra de todos os povos que viviam nas Américas, passou a ser da Coroa portuguesa ou espanhola, que a doava a quem fosse conveniente. Assim, arrancavam matérias-primas, tal como o Pau-Brasil, e vendiam-nas para diferentes partes do mundo. Quem trabalhava na extração, produção de cana de açúcar, café, mineração, eram os índios escravizados e mais tarde os negros. A mão de obra escrava e o custo zero das terras davam um lucro exorbitante aos colonizadores. Foi assim que países como a Inglaterra, Holanda e mais tarde Estados Unidos, se enriqueceram. Através das nossas águas, farta produção de alimentos, matéria-prima, ouro e prata e mão de obra escrava. Foi através da morte de milhões de índios e negros, que o “primeiro mundo” se tornou rico. Aprendemos nas escolas que em 1.500 os portugueses descobriram o Brasil. Em 1.500, os portugueses invadiram o Brasil. Escravizaram um povo que vivia em harmonia entre si e com a natureza. Dizimaram essa população, roubaram suas terras, suas matas, seus rios, sua comida. Acabaram com sua cultura e sabedoria. A história “oficial” é contada pelos “vencedores”. A história real fica escondida da gente. Como escreveu Eduardo Galeano: “...a história do subdesenvolvimento da América Latina integra a história do desenvolvimento do capitalismo mundial (...) nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neocolonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno”.
Um abraço,
Tiago Mi


segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Quem Interessa?





O jovem músico de vinte e poucos anos aceitou o convite. A responsabilidade era grande. Ele não tinha formação técnica musical e pedagógica, mas era o único disposto a subir o morro todos os sábados, entrar na favela e montar um coral com crianças e adolescentes de um pequeno colégio no meio da comunidade.
No primeiro dia de aula, se surpreendeu com a atenção, percepção e com o carinho que aqueles vinte e poucos alunos o receberam.
Se apresentou, conversou um pouco e escreveu no quadro negro com uma das poucas pontas gastas de giz que havia: “´Nós devemos ser a mudança que desejamos ver no mundo.’ Mahatma Gandhi.” Em seguida, perguntou: O que nós desejamos ver no mundo? Choveram respostas: natureza, paz, amor, justiça, um mundo sem drogas, sem violência, onde a gente viva bem, solidário... Depois de muitas palavras de um futuro utópico, o professor partiu para a parte mais difícil do exercício e fez a pergunta: “O que é necessário para que esse mundo exista?” Ingenuamente, havia preparado todo um discurso para tentar passar o que Gandhi quis dizer. Porém, no instante em que fez a pergunta, um garoto no fundo da sala ergueu a mão: “A gente precisa começar pela gente!”. Pronto! Não precisava dizer mais nada. O menino João de 13 anos sabia profundamente o que aquilo significava. João vem de uma família de dez irmãos criados pela avó, num barraco de dois cômodos sem banheiro. Na época, já eram 8 os sobreviventes. Dois haviam sido mortos. Um por engano. Muito parecido com o irmão mais velho chefe do tráfico, foi confundido. Em seguida, os traficantes do morro ao lado que pretendiam dominar a boca, mataram o “certo”. Mas quem assumiu o comércio foi um outro irmão de Jorge, dois anos mais velho. A pressão era grande. A “firma” precisava de gente pra trabalhar e defender o poder e o pão de cada dia. João se dividia entre o “córre” e as aulas de coral e violão aos sábados, únicos lugares em que era valorizado. A mente e o coração de João estavam divididos. Ele sonhava com um mundo sem violência, sem drogas, e se via entrando num mundo oposto que sustentava seus desejos e necessidades e o forçava a participar. Olhando de fora parece ser fácil a escolha. São nove os seres humanos que sobrevivem com a fortuna que a avó, descendente de escravos, recebe de aposentadoria. João tentou arranjar emprego. O fato de morar na favela não o ajudava, muito menos seus conhecimentos em português, matemática e informática que a sexta série do ensino público brasileiro oferece. Apesar de saber que a construção do mundo baseado no “bem viver” precisa dele, o mundo que construímos, que também precisa de João, se mantém forte.
Essa é mais uma, dentre milhares de histórias reais do dia-a-dia de uma das maiores economias do planeta. Por onde anda essa fortuna? Instituições internacionais como FMI e Banco Mundial, tratam o Brasil como um país em desenvolvimento. Qual desenvolvimento? Economicamente, nossa nação começa a dialogar com certa autonomia frente às grandes potencias mundiais. Socialmente, produz os piores problemas que afetam a todos, principalmente a população cuja presença do poder público é mínima. Grande parte de nossas crianças estão fadadas a aprender sobre a vida apenas com a vida. Algumas delas aprendem somente a sobreviver. A quem interessa um país em desenvolvimento econômico sem o desenvolvimento de seu povo? Por que, ao invés de criarmos funcionários para o mercado de trabalho e mão de obra barata, não formamos cidadãos que passem a questionar sobre essa forma de viver? A princípio, seria apenas uma luta para permitir que um maior número de pessoas coma mais, more com dignidade e eduque-se. A partir desses fundamentos básicos, muitos outros problemas se resolveriam sozinhos, e aí sim, poderíamos começar a dizer que o Brasil é um país em desenvolvimento. Porque uma nação saudável se faz de indivíduos saudáveis.

Um abraço,
Tiago Mi

Maravilha!




Maravilha!

Com um lindo sorriso e um brilho nos olhos a jovem menina perguntou esperançosa: “Voltou pra ficar?”. “Seu Deus quiser!”, foi a resposta do jovem professor.
Há quem diga que o que aconteceu foi perda de tempo. Mas quem conhece um pouco do ser humano sabe que é fundamental para o desenvolvimento de qualquer pessoa a música, a criatividade, a disciplina, a atenção, o carinho, o afeto, o respeito, a auto-estima, a dignidade, o incentivo à arte, um trabalho que movimente o corpo, a mente e o espírito da criança. E quem conhece um pouco de sociedade, sabe da importância da cultura, da união das pessoas em prol de um objetivo em comum, do lazer, do trabalho, da arte, da música, da expressão. Não é apenas a busca pelo dinheiro e pelo lucro que move as pessoas. Não é apenas o movimento econômico que deve mover os interesses de um município. O ser humano se constitui de aspectos muito mais subjetivos que objetivos.
Aquela menina participou de um movimento cultural grandioso que engloba todas as qualidades citadas acima. O maior do nosso país, do qual São Miguel Arcanjo é referência na região e possui um potencial gigantesco para crescer. Juntos dela fizeram parte centenas de são-miguelenses em diversos blocos carnavalescos, escolas de samba, clube, o que atraiu milhares de pessoas para prestigiar, se divertir e fazer parte do Carnaval 2010 de São Miguel Arcanjo. Tudo começou com a escolha da Musa do Carnaval. Nu`Interessa, Bloco das 7, Brócão, Bloco da Tia Marta, Bloco do Coreto, QG do Barracão, dentre outros,  tiveram cada um, uma centena de foliões fazendo o carnaval. A Ponte Preta e a Zolivre, com mais de 120 integrantes, com suas baterias, alegorias, fantasias, sambas-enredo, movimentaram compositores, desenhistas, músicos, batuqueiros, jovens dançarinas, artista plástico, costureiras, foliões e jovens e adultos que se movimentaram para construir tudo isso. E ainda, uma bateria de escola de samba formada por 40 jovens de 6 a 14 anos chamada de Mirim Livre do CIS Curumim encerrou em grande estilo essa festa. Algo que contou com a ajuda de empresas como o Supermercado Almeida, Supermercado MH, Viva Morena Calçados, Casa da Praça, Auto Posto Marchesin, Sítio MC, Rádio Aliança FM e Zolivre. Isso mostra que além de toda movimentação popular e de qualidades fundamentais para uma sociedade saudável, existe também em nosso carnaval, consciência. Consciência de que somente movimentando e integrando crianças de forma saudável à cultura e à sociedade, conseguiremos um “bem viver” para todos nós. É claro que para isso é preciso organização de quem está interessado em fazer o carnaval e incentivo e investimento por parte do poder público, que é o seu dever.
Mas o mais importante é que o sorriso daquela menina algumas semanas depois em que desfilou com a bateria Mirim Livre e que representa o sorriso de outros 40 jovens, dá a certeza de que teremos um futuro mais digno. Isso porque esse sorriso tem por traz a força de vontade, a atenção, a disciplina, o carinho, o interesse, o respeito, a inteligência, a capacidade, a alegria, a solidariedade, a esperança e a vontade de querer mais, que demonstraram ter essas 40 pequenas almas nas aulas, ensaios e no desfile. Se dermos espaço e oportunidades para essa turma, São Miguel Arcanjo, o Brasil e o Planeta estarão em boas mãos.

Um abraço,
Tiago Mi






Punição, Não Falta

Cresceu na Cidade de Deus, favela do Rio de Janeiro. Naquela realidade que vimos no filme que leva esse nome. Sua tia Celestina lia histórias do mundo ao menino quando ainda não sabia ler. Outros estímulos para a arte vieram de dona Marília Freitas e dona Sônia Formiga, professoras do primário. O incentivo gerou frutos. Paulo cursou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais tarde, o que escreveu foi traduzido em 14 ou 15 línguas. Livro que virou um dos filmes de maior sucesso do cinema brasileiro e segundo um importante jornal norte-americano, está entre os 10 melhores filmes da história: Cidade de Deus.

Em entrevista à revista Caros Amigos de abril de 2010, o escritor Paulo Lins que, da favela da Cidade de Deus ganhou o mundo, fala com a consciência de quem conhece o contra ponto, a outra face da sociedade. Das quatro páginas de sua entrevista, segue um pequeno trecho do que, segundo ele, acontece na cidade Maravilhosa:

“... Sérgio Cabral (Governador do Rio de janeiro) fala, por exemplo: ‘a polícia sobe na favela e tem que trocar tiro mesmo, porque o traficante não recebe a polícia com flores e sim com tiros, então a polícia responde à altura’. Com essa teoria de porta de gabaré, talvez esse tenha sido o governo que mais matou nesse Estado. A polícia é recebida com tiro porque o Estado deixa as armas e munição chegarem lá pela corrupção. E as drogas também. Drogas nem tanto, porque as drogas não são oficiais como as armas – não há fábricas de armas clandestinas. Então são os empresários do setor e os governos que são os responsáveis pelas armas que estão matando essas crianças, esses meninos semianalfabetos, desnutridos, sem cultura, sem educação, com fome e com raiva. A polícia do Sérgio Cabral matou tanto que quatro desembargadores, cinco juízes, músicos, artistas, professores, jornalistas, além de diversas entidades como a OAB, Tortura Nunca Mais, MST e pessoas como Marcelo Yuka, Letícia Sabatella, Lobão, Beth Carvalho, Nilo Batista, Carlos Latuff, Cecília Coimbra, Vera Malaguti e várias outras assinaram um manifesto contra essa política assassina do início do governo dele. Eu também assinei. Não é fácil dar tiro na polícia, tem que ter peito. Para o cara sentar o dedo na polícia, ele está dando um tiro em toda a sociedade. Então, quando ele atira num policial, ele está atirando no presidente da República, nos deputados e senadores, no governador; nas pessoas que discriminam, está atirando nos racistas, nos corruptos, nos ladrões da política, nessa gente que só pensa em lucro. Enfim, ele está atirando no que a gente tem de pior. Está atirando naquilo que o faz existir”.

Como diz uma Assistente Social: “Pra esse povo falta tudo: educação, alimentação, moradia digna, atenção, estrutura familiar, saúde, dignidade... Punição, não falta”.