Na Lagoa
Descobrimento?
Estima-se uma população de 90 milhões de habitantes. Para eles, o mundo é um luxo de se viver, tão rico de aves, de peixes, de raízes, de frutos, de flores, de sementes, que podia dar as alegrias de caçar, de pescar, de plantar e colher a quanta gente aqui viesse ter. Na sua concepção sábia e singela, a vida é dádiva de deuses bons, que lhes doaram esplêndidos corpos, bons de andar, de correr, de nadar, de dançar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes e suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou melódicas, cantos graves e agudos e toda a sorte de sons que há. Narizes competentíssimos para fungar e cheirar catingas e odores. Bocas magníficas de degustar comidas doces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia dar. E, sobretudo, sexo opostos e complementares, feitos para as alegrias do amor.
É assim que via o mundo, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, essas pessoas espalhados por toda a América do Sul, denominada por Índios pelos colonizadores espanhóis e portugueses quando aqui chegaram um pouco antes do ano de 1.500. 500 anos depois, encontramos espalhados por nosso continente uma pequena fração desses povos: 3 milhões de sobreviventes. Custando uma quinta parte do preço de um negro importado, o índio cativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus deixaram de fazer qualquer trabalho manual. Toda tarefa cansativa, fora do eito privilegiado da economia de exportação, que cabia aos negros, recaía sobre o índio.
Na chegada dos europeus, o que era a terra de todos os povos que viviam nas Américas, passou a ser da Coroa portuguesa ou espanhola, que a doava a quem fosse conveniente. Assim, arrancavam matérias-primas, tal como o Pau-Brasil, e vendiam-nas para diferentes partes do mundo. Quem trabalhava na extração, produção de cana de açúcar, café, mineração, eram os índios escravizados e mais tarde os negros. A mão de obra escrava e o custo zero das terras davam um lucro exorbitante aos colonizadores. Foi assim que países como a Inglaterra, Holanda e mais tarde Estados Unidos, se enriqueceram. Através das nossas águas, farta produção de alimentos, matéria-prima, ouro e prata e mão de obra escrava. Foi através da morte de milhões de índios e negros, que o “primeiro mundo” se tornou rico. Aprendemos nas escolas que em 1.500 os portugueses descobriram o Brasil. Em 1.500, os portugueses invadiram o Brasil. Escravizaram um povo que vivia em harmonia entre si e com a natureza. Dizimaram essa população, roubaram suas terras, suas matas, seus rios, sua comida. Acabaram com sua cultura e sabedoria. A história “oficial” é contada pelos “vencedores”. A história real fica escondida da gente. Como escreveu Eduardo Galeano: “...a história do subdesenvolvimento da América Latina integra a história do desenvolvimento do capitalismo mundial (...) nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neocolonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno”.
Um abraço,
Tiago Mi

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