quinta-feira, 23 de setembro de 2010

8 de Setembro


Era a mais entusiasmada da turma. Sempre chegou mais cedo. Ajudava a organizar a sala, entregar aos colegas as letras de músicas, flautas, ou qualquer outro material a ser usado nas aulas de coral que freqüentava todos os sábados no colégio em meio à comunidade num morro da capital. No final, era a responsável por guardar tudo e ajeitar o espaço para as próximas atividades. Mas não fazia tudo sozinha. Tinha carisma perante os colegas que a acompanhavam nas tarefas que se encarregou por livre e espontânea vontade.
Juliana chegou à comunidade, uma favela num morro do centro da capital, com a mãe e os irmãos havia alguns anos. Vieram do interior. Lá, as muitas terras nas mãos de poucos donos cuja grande produtividade de produtos agrícolas é conseguida a custos baixos através da mão de obra barata, não ofereciam empregos a todos, muito menos qualidade de vida. O município não era inteligente para gerar oportunidades e perspectivas melhores para a mãe e seus filhos. Acreditavam que na capital teriam melhor sorte.
Nas aulas de coral e flauta aos sábados, Juliana, de 12 anos, sempre acompanhada de seu irmão mais novo, Daniel, se sentia a vontade e acreditava no que ouvia. Sabia que ali era bem-vinda. Tinha um carinho imenso pelo professor e sua equipe que, conscientes dos problemas que afetam aquelas crianças, estavam dispostos a fazer com que jovens sem perspectivas se tornassem cidadãos brigadores de seus direitos, tomassem a rédea de suas vidas e lutassem pelo que acreditavam.
O dia 8 de setembro é uma data especial na comunidade. Aquela gente pára para as festas e a procissão em homenagem ao dia de sua padroeira. Por coincidência é o mesmo dia do aniversário do professor de música do coral, que há alguns meses compartilhava ali bons momentos com a população. Naquele tempo muitas coisas foram feitas com a parceria escola e coral de música. A comunidade que antes via o professor com desconfiança passou a confiar em seu trabalho e admirar aquele jovem que ia até eles despretensioso compartilhar seus conhecimentos.
No dia 8 de setembro, junto à homenagem à padroeira, homenagearam também o professor. Foi um dos dias mais importantes de sua vida. Juliana lhe deu um cartaz desenhado e assinado por todos seus alunos. E depois, um presente em particular. Junto da mãe, Juliana comprou uma pequena imagem de Nossa Senhora e com um cartão, entregou ao professor desejando-lhe força para continuar seu trabalho e que Nossa Senhora o iluminasse por toda a vida.
Na semana seguinte Juliana não apareceu na aula de música. Ela nunca havia faltado. Logo a notícia se espalhou. Juliana e sua família foram expulsas do morro. Seu irmão mais velho devia dinheiro a traficantes que entraram em sua casa, destruíram quase tudo e levaram alguns objetos prometendo voltar. À mãe da menina não restava outra alternativa a não ser fugir com seus filhos.
Segundo a polícia nada podia ser feito. Uma minoria da favela envolta a grande maioria de trabalhadores e gente de bem consegue fazer um estrago gigantesco. Minoria esta que detém o poder onde o poder público não exerce suas responsabilidades. A polícia que atende ao chamado de uma casa onde um quadro de milhões de dólares é roubado, não se prestou a dar segurança e reaver os pertences de Juliana e sua mãe.
O Brasil é dominado por minorias. São os banqueiros, grandes agropecuários e grandes empresas nacionais e multinacionais os financiadores das campanhas de deputados, senadores, prefeitos, vereadores, governadores, presidentes... A quem irão atender ao criarem leis ou fazerem justiça, os nossos excelentíssimos governantes? À Juliana e sua família resta aprender a importante lição do valor de seu voto, trocado, como vemos em todos os lugares, por cestas básicas, favores, combustíveis ou empregos. Muitos dos nossos governantes estão lá financiados por grandes empresas e eleitos pela compra de votos. Não é de seus interesses informar e educar esses eleitores. Muito menos promover políticas públicas que gerem censo crítico na população. Quanto mais conscientes forem as pessoas, mais difícil será a conquista desses votos.
Aos que tiveram a oportunidade de aprender essa lição, resta a opção de deixar como está, ou de fazer algo para reverter. As conseqüências do desinteresse por uma educação conscientizadora, de comida e moradia digna para todos e principalmente de governantes de qualidade, afetam a todos nós. Num país em que muitas vezes se opta por votar no “menos pior” por falta de escolha, resta acreditar na união das pessoas conscientes. Trata-se de uma força e um poder sem igual que precisamos aprender a usar.
Aos colegas de Juliana fica a saudade. Violências são freqüentes na vida daquelas crianças, tornando, infelizmente, esse tipo de acontecimento, natural. Ao professor ficam o sentimento de impotência, as lembranças daquele sorriso sincero e o presente que é guardado como o objeto mais valioso que possui.