Diário de Bordo
“São gente de amor e prestativos para tudo, e certifico as Vossas Altezas que em todo o mundo creio que não há melhor gente nem melhor terra; eles amam a seus próximos como a si mesmos, e tem a fala mais doce do mundo, e mansa, e sempre com sorriso. Eles andam desnudos, homens e mulheres, como suas mães os pariram, mas crêem Vossas Altezas que entre si têm costumes muito bons, e um rei muito maravilhoso. Em todas estas ilhas me parece que todos os homens são felizes com uma mulher. Nem se pode entender se têm bens próprios, pois me pareceu ver que aquilo que um tinha, todos faziam parte, em especial as comidas. Nestas ilhas não há homens monstruosos como muitos pensavam, mas sim, muita gente de muita beleza. Posso afirmar a Sua Alteza que lhe darão todo o ouro que quiser; especiarias e algodão o quanto carregar, e o Senhor a vende como quiser, e levará o quanto mandar carregar, e escravos o quanto mandar carregar, e outras mil coisas, o quanto puder levar.”
Estes são trechos do Diário de Bordo de Cristóvão Colombo e de uma carta que mandou ao Rei da Espanha e sua realeza quando chegou nas magníficas terras que hoje chamamos de América do Sul. Terras estas cheias de um povo que vivia livre de armas, de guerras, em harmonia, com uma população estimada em 90 milhões de habitantes espalhados em diversas etnias por todo o continente. Hoje, não passam de 3 milhões de sobreviventes. A América do Sul tem um histórico de opressão e violência por parte de quem aqui chegou com o objetivo de extrair as riquezas naturais das terras mais ricas do globo. A pólvora e a ambição falaram mais alto que a harmonia e a sabedoria de se viver, de bem viver. O ouro foi mais valioso que as vidas desses homens e mulheres. A história “oficial” nos dá a versão dos que venceram na força, a história real do decorrer dos nossos 500 anos nos explica o porquê de 47% dos nossos jovens viverem na miséria, o porquê da violência da qual somos refém. Miséria, presídios lotados, fome, falta de moradia digna, são conseqüências de um passado recente e de um presente camuflado. O conhecimento nos torna mais fortes e preparados para escolher o que quer que seja, e pra brigar pelo o que acreditamos. A história real a gente não aprende na escola por que um povo com conhecimento nunca aceitaria a realidade de um país como o nosso, do nosso Estado, do nosso município. Como diz o poeta, “a sabedoria do povo daqui é o medo dos homens de lá”.
Um abraço,
Tiago Mi