terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Negação da Vida Humana



Apoiados principalmente no filósofo argentino Enrique Dussel em sua obra “Ética da Libertação”, indo até Marx, antes de falarmos sobre a Negação da Vida Humana, vamos afirmá-la. Afirmar a vida em todas as suas astúcias, em toda sua complexidade, em toda sua riqueza. Afirmá-la no valor de cada sujeito como um ser único, autônomo, realizador, construtor da história. Afirmamos o valor à vida. Reconhecemos no “Outro” um sujeito humano. Por humana entendemos a vida em toda sua complexidade e riqueza, em seu nível físico-biológico, histórico-cultural, ético-estético e até místico-espiritual, sempre num âmbito comunitário, em sua vida em comunidade. A possibilidade da reprodução da vida humana em todas as suas esferas, seu desenvolvimento cultural, científico, estético, místico e ético, é a Afirmação da Vida Humana.  É o respeito à vida, ao valor da vida concreta de cada sujeito autônomo, sensível, dono de si, dono de sua realidade, de sua história e construtor da história, em todas as suas possibilidades de desenvolvimento. O sujeito humano por si só é rico, nasce rico. E por essa riqueza, entendemos toda aquela objetividade e subjetividade intrínseca ao ser.
Nos últimos cinco anos do século XX, a pobreza a nível mundial atingiu 400 milhões de pessoas. “Entramos” no século XXI com 1,5 bilhões de pessoas desesperadamente pobres e mais de um bilhão sobrevivendo com uma renda diária que não chega a um dólar, inclusive nos países desenvolvidos, assinalava a Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje somos estes 2,5 bilhões de pessoas vivendo na linha da miséria, e mais 2 bilhões sobrevivendo um pouco acima dela. Mais de dois terços da população mundial vive para sobreviver.
Como pobreza, entendemos não só a questão econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução ou desenvolvimento da vida humana; é falta de cumprimento das necessidades, de todas aquelas enumeradas, de toda a riqueza intrínseca do sujeito humano. A pobreza é a impossibilidade da reprodução físico-biológico, cultural, científico, estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade.
Neste ponto, entramos no valor do trabalho, do trabalho vivo. O censo comum nos ensina que todo o trabalho é digno. De fato, o ato de trabalhar, onde quer que seja, para se auto-sustentar ou sustentar sua família, é digno. Porém, o trabalho em si não o é, necessariamente. Quando não oferecemos oportunidades, acesso ao conhecimento, ao esporte, ao lazer, à arte e à cultura, à profissionalização, quando não garantimos uma estrutura firme onde o jovem possa caminhar para alçar seus próprios vôos e se desenvolver em toda sua riqueza, negamos o direito à Vida. Esta “Negação da Vida Humana” o leva a trabalhos (in)dignos (termo usado pelo sociólogo Jessé Souza em seu livro “A Ralé Brasileira), trabalhos que limitam, reduzem toda a riqueza humana, todas as possibilidades da vida humana, em simplesmente força braçal. Apoiados em Marx, afirmamos ser este trabalho, quando praticado não por escolha mas pela falta de outras oportunidades, o alienante, injusto, vitimisista, sacrificante. Conseqüência de uma estrutura histórica que nega a vida do trabalhador, que o oprime, desrealiza, empobrece e mata em toda as esferas da afirmação da vida. E porque mata a vida do sujeito humano e produz vítimas, é um sistema perverso, injusto. É exatamente o que chamamos de “Negação da Vida Humana”.
A manutenção de tal realidade vem do instinto da autoconservação de quem detém o poder. Vem da omissão de quem compreende a realidade. O instinto de autoconservação dos que chamamos de “Guardiões do Atraso”, faz com que as ações destes, detentores do poder econômico, político e social, e de todos os outros omissos ou que não enxergam outras formas de viver, sejam voltadas à manutenção do status quo. O medo da mudança faz com estes homens privilegiados em determinadas sociedades, utilizem destes privilégios e do poder a eles atribuído, para impedir que outras possibilidades e oportunidades estejam presentes no cotidiano de suas vítimas. Quando as vítimas se entendem submersas nesse sistema e agem para transformá-lo, cabe aos “Guardiões do Atraso” subjulgar e enfraquecer as ações que visam a mudança da realidade. Nossa forma de viver, o meio em que vivemos, podem ser organizados de outras maneiras. Podemos construir um espaço a favor do desenvolvimento da vida. Podemos nos organizar de uma forma em que mais pessoas comam bem, morem bem, trabalhem bem, vivam bem. Podemos viver a favor da Afirmação da Vida Humana. É apenas uma questão de escolha.

Um abraço,
Tiago Mi.


terça-feira, 7 de junho de 2011

A Goiabeira - Tiago Mi

A Goiabeira

Foto: Duda Corrêa - Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo

Em um colégio de nossa cidade, em algum dos nossos bairros rurais rodeados de fazendas e plantações, uma professora, neste ano de dois mil e onze, esperançosa, propôs uma idéia aos seus trinta e dois ou trinta e três alunos de quatorze, quinze ou dezesseis anos: “coloquem nessa caixa, seus sonhos”. Dentre todos, uma menina sonhou grande. Gostaria de viajar, conhecer o mundo, novas culturas, pessoas diferentes. Essa menina, sonhadora, se mostrou uma Goiabeira, com seus frutos começando a brotar, em meio a milhares de pinheiros. Suas colegas, “pinheiros fêmeas”, escreveram em um papel e botaram na caixa de sonhos seus desejos de terem muitos homens. Seus colegas, “pinheiros machos”, sonham em ter muitas mulheres e uma moto.
Se este texto se propusesse a falar dos sonhos destes jovens, acabaria por aqui. Mas continuo escrevendo pra você, Goiabeira. Pra você que olha ao redor e vê um monte de gente igual, reta, falando as mesmas coisas, que pra você não fazem tanto sentido. Você se sente diferente, Goiabeira, e começa a achar que todo mundo está certo e você, a única errada. É difícil ter sonhos no meio em que você vive. Tanto é que dentre tantos, só você sonha. E esse simples fato, que pareceria ser o natural, te faz tão diferente. Mas, mais difícil, é concretizar seus sonhos nessa nossa realidade. Um homem sábio me disse uma vez: “Há pessoas e pessoas”. Os “iguais” irão te travar. São ótimos em dizer que você não é capaz. Não adianta tentar, Goiabeira, eles dizem. Mas perdoe-os. Eles têm medo de errar, sempre tiveram. São covardes. Muitos te atrapalharão, conscientes, e encontrarão inúmeras desculpas para isso. Irão até dizer que o fazem pra você não se frustrar no futuro. Como se você também fosse covarde, como se você também tivesse medo. Sua alma é grande, Goiabeira, mas eles a querem deixar pequena como a deles. Eles querem que você seja igual a eles: “desenvolvidos?”, “racionais?”, “evoluídos?”. São, na verdade, “sem-graça”, donos de uma “razão” burra, e querem que você também o seja. Os pinheiros ao redor irão sugar toda a sua água e cobrir todo o seu sol, necessários para encherem seus frutos, fortalecerem seu caule, esverdearem suas folhas. Mas você é persistente. Muitas goiabeiras espalhadas por aí, como você, Goiabeira, secam antes de suas raízes criarem forças para resistir aos pinheiros. Secam antes de suas raízes encontrarem outras raízes firmes, por baixo das terras, de outras goiabeiras, poucas é verdade, espalhadas em meio a milhares de pinheiros, porém, já fortificadas, cheias de frutos, com raízes profundas na terra. Aquelas que um dia sonharam como você e continuam acreditando em sonhos. É nelas, Goiabeira, que você deve se agarrar. Há pessoas e pessoas. Estas irão te incentivar. Oferecerão a água necessária para te fortalecer, e o sol suficiente para iluminar suas folhas. Irão te apoiar enquanto você cresce, abrirão oportunidades. Dependerá muito de você, Goiabeira, mas estas te regarão, e acharão sublimes as suas frutas quando amadurecerem, e se deliciarão com seu sabor, e ficarão felizes com suas conquistas. E aí, Goiabeira, chegará o dia em que você encontrará outras goiabeirazinhas, ou limoeirozinhos, ou “alfacezinhos” em meio a milhares de pinheiros, e se tornará a luz destes. Na verdade, você já pode ser. Você pode ser a luz de quem está ao seu redor, você pode ser “as pessoas” que abrem portas, que incentivam, que emanam luz, que sonham, que acreditam e que persistem. E você pode fazer isso simplesmente com suas palavras, Goiabeira. Com sua presença, com seu sorriso. Acredite! Por mais difícil que pareça, acredite! Mesmo que tudo esteja contra você, há pessoas e pessoas. E por mais impossível que possa parecer, Goiabeira, você pode escolher qual “pessoas” você quer ser.

Um abraço,
Tiago Mi.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Tome Chuva!

Tome Chuva!

 Foto: Duda Corrêa - Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo

“Todos nós desejamos a felicidade e não sofrer”. É o que diz Dalai Lama. Para ele esse desejo deve ser respeitado e a felicidade é um direito universal. Todos temos o direito a ser feliz. Segundo Aristóteles, “ser feliz” é o primeiro e fundamental traço ou imperativo da figura ética do homem. Um ato Ético então, para Dalai Lama, é aquele que não fere a experiência de felicidade de outra pessoa. Um ato anti-ético é aquele que fere a experiência de felicidade de outros.
Leonardo Boff, representante brasileiro do Conselho da Terra, explica que a ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo acerca da vida, do universo, do ser humano e de seu destino, estatui princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções. Diz-se, então, que tem caráter e boa índole.
Para o filósofo Enrique Dussel, "a vida humana é o conteúdo da ética”. A ética motiva-se através da vida em comunidade a partir de cada sujeito, dos valores, das virtudes, com a finalidade de se chegar à felicidade, de viver bem. Parte-se "de dentro" de cada um para a relação com o próximo, e é "um princípio universal de toda a ética [...] da obrigação de produzir, reproduzir e desenvolver a vida humana concreta de cada sujeito ético em comunidade." Uma comunidade ética, então, começa a partir da eticidade de cada um e, para construir essa eticidade, é preciso observar os direitos de cada ser humano e respeitá-los. O direito fundamental pode ser o direito à felicidade. Para Dalai Lama, "é possível estabelecer princípios éticos controladores quando tomamos como ponto de partida a constatação de que todos nós desejamos a felicidade e queremos evitar os sofrimentos”.
A Constituição Brasileira de 1988 expressa em suas linhas no Art. 227 que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Incluímos aqui o direito a sonhar. Quando não damos acesso aos nossos jovens a essas prerrogativas garantidas em constituição, cometemos um crime, violamos direitos. Ferimos a experiência de felicidade da juventude, realizamos um ato anti-ético usurpando destes o direito fundamental de todo ser humano: ser feliz.
Não somos “formados” para termos essa percepção da realidade. Somos, na verdade, em grande parte, o homus economicus, seguindo tal doutrina religiosamente, sem refletir. Sendo a cada dia, como diz Eduardo Galeano, convencidos mais e mais de que não há virtude maior do que a virtude do papagaio, do macaco, dos que imitam. De ecos de vozes alheias. Daquelas que nos fazem ser o que somos, uma cópia precária e mal acabada de uma modernidade que não chegou aqui.
A pouca noção de responsabilidade, de que somos responsáveis pelos efeitos de nossos atos, faz fortalecer a idéia de que a ética deva estar mais presente e atuante nas entranhas da sociedade. "A humanidade geme, quase sepultada pelo peso do progresso que produziu. Ela não sabe suficientemente que seu futuro depende dela. Dela depende se quiser continuar vivendo". (BERGSON). Portanto, a ética como reflexão crítica e como reflexão de projetos e utopias se torna urgente. Tanto no cidadão, o civil, quanto nos órgãos reguladores dos Estados, nas instituições de todos os tipos, principalmente educadoras, sendo essa dupla atividade oportuna e importante neste momento histórico. Durante isso, tome chuva! Faz bem e você tem esse direito.

Um abraço,
Tiago Mi.

terça-feira, 1 de março de 2011

As Maravilhas da Uva do Século XXI

As Maravilhas da Uva do Século XXI



No Jornal A Hora, um colega escreveu uma crônica sobre o semáforo de São Miguel Arcanjo. Aproveito a Festa da Uva que acabou de acontecer, e o texto do colega sobre nossa “entrada” no século XXI, para expressar minha opinião talvez um pouco distinta, em partes, do que li, e de algumas decisões dos centros de poder que tenho observado em nossa cidade.

Segundo o filósofo Michel Foucault, em seu livro “Vigiar de Punir”, a sociedade moderna é perpassada por “interpretações de fachada”, visíveis e perceptíveis por todos, que ele chama de conteúdos “manifestos”. Estas existem precisamente para esconder as “interpretações escondidas”, invisíveis e opacas para todos, que ele chama de conteúdo “latente”. Isto é, o senso comum tem uma idéia da nossa realidade. Idéia essa que esconde as reais causas dos nossos problemas, ou escondem os próprios problemas. Faz parte de qualquer cidadão que se preocupa e tem o interesse em transformar uma realidade da qual não concorda, em tentar tornar visíveis nossos problemas e suas causas para assim, debater as formas de modificar essa realidade e agir.

A Uva é talvez o nosso bem mais precioso. Vem dela grande parte da nossa riqueza. Graças à Uva, temos essa grande festa que movimenta milhares de expectadores. No evento, alguns cartazes e homenagens agradecem e exaltam os produtores rurais. Quanto aos artistas, acredito que poderíamos “usar” deste grande evento para incentivar com mais força a música e a arte local. Há muito talento escondido por aqui. Mas este é um assunto para um outro momento.

Nosso bem mais precioso, a Uva, que atrai grande parte da nossa riqueza e gera emprego a milhares de trabalhadores, ao mesmo tempo produz os nossos maiores problemas. O trabalhador rural, grande responsável por toda a produção, atuante muitas vezes sem carteira assinada, não consegue proporcionar uma vida digna a sua família com o “salário” que recebe. Está em seus filhos, jovens são-miguelenses, a falta de perspectivas de futuro. São eles quem não possuem sequer o direito a sonhar. Vivem presos a um ciclo vicioso iniciado há muito tempo. Todos os anos, a partir de outubro, muitos jovens abandonam as escolas seduzidos pelos 25 reais diários, em média, recebidos na lavoura pelo trabalho de sol a sol. Perdem o ano escolar. Às 6 da manhã os ônibus rurais passam pelo centro recolhendo os trabalhadores. Entram neles também crianças de 13, 14, 15, anos. O trabalho árduo, a falta de lazer, de esporte, de música, de cultura, de cursos, de oportunidades, de cidadania, de educação, de conscientização, gera a ociosidade que é recompensada com o consumo indevido de álcool, de maconha, de cocaína, de CRACK, de sexo indiscriminado. A Uva e a Agricultura em geral, pela forma na qual realizamos, aliada ao abandono, é a responsável em grande parte pela gravidez precoce, pela prostituição infantil, pela violência, pelos assaltos, pelas clínicas para dependentes lotadas. Há mais demandas do que vagas. É assim que, na alquimia do século XXI, a Uva se transforma em veneno na saliva do nosso povo.

Não se trata aqui de uma crítica a alguém em especial. Nem é a intenção criar inimizades. Muito pelo contrário. Temos um projeto para transformar essa massa jovem de mão-de-obra barata em sujeitos conscientes transformadores dessa realidade: o Capital Juvenil. E para tal, precisamos da união de todos, fundamentalmente, dos donos do poder. O diálogo é fundamental e ele está existindo. Apóiem-nos, unam-se a nós, invistam. Nós queremos conversar, debater, estamos dispostos a trabalhar e estamos trabalhando duro. E quanto a maior preocupação existente, esta nunca será concretizada: sempre haverá pessoas dispostas a trabalhar nas lavouras. Principalmente se ela for feita de forma justa e digna. Quanto ao semáforo, passa a ser secundário. “Entraremos” realmente no século XXI quando houver igualdade de direitos e de oportunidades (fundamentos da modernidade). Até lá, se continuarmos assim, seguiremos num desenvolvimento cruel em marcha lenta, produzindo riqueza para alguns e construindo para as vítimas da agricultura, Casas Populares.

Um abraço,
Tiago Mi.

Tiago Mi, 27 anos, é idealizador e coordenador do Movimento Capital Juvenil.  Possui 11 anos de experiência com jovens em situação de vulnerabilidade social. Formado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e mestrando em Sociologia Política e Ética pela Universidade de São Paulo - USP – São Paulo, é Sócio-Fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis - SC, idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval em São Miguel Arcanjo – SP e Presidente do ASASS (Associação São-miguelense de Assistência Social e Saúde).