A Negação da Vida Humana
Apoiados principalmente no filósofo argentino Enrique Dussel em sua obra “Ética da Libertação”, indo até Marx, antes de falarmos sobre a Negação da Vida Humana, vamos afirmá-la. Afirmar a vida em todas as suas astúcias, em toda sua complexidade, em toda sua riqueza. Afirmá-la no valor de cada sujeito como um ser único, autônomo, realizador, construtor da história. Afirmamos o valor à vida. Reconhecemos no “Outro” um sujeito humano. Por humana entendemos a vida em toda sua complexidade e riqueza, em seu nível físico-biológico, histórico-cultural, ético-estético e até místico-espiritual, sempre num âmbito comunitário, em sua vida em comunidade. A possibilidade da reprodução da vida humana em todas as suas esferas, seu desenvolvimento cultural, científico, estético, místico e ético, é a Afirmação da Vida Humana. É o respeito à vida, ao valor da vida concreta de cada sujeito autônomo, sensível, dono de si, dono de sua realidade, de sua história e construtor da história, em todas as suas possibilidades de desenvolvimento. O sujeito humano por si só é rico, nasce rico. E por essa riqueza, entendemos toda aquela objetividade e subjetividade intrínseca ao ser.
Nos últimos cinco anos do século XX, a pobreza a nível mundial atingiu 400 milhões de pessoas. “Entramos” no século XXI com 1,5 bilhões de pessoas desesperadamente pobres e mais de um bilhão sobrevivendo com uma renda diária que não chega a um dólar, inclusive nos países desenvolvidos, assinalava a Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje somos estes 2,5 bilhões de pessoas vivendo na linha da miséria, e mais 2 bilhões sobrevivendo um pouco acima dela. Mais de dois terços da população mundial vive para sobreviver.
Como pobreza, entendemos não só a questão econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução ou desenvolvimento da vida humana; é falta de cumprimento das necessidades, de todas aquelas enumeradas, de toda a riqueza intrínseca do sujeito humano. A pobreza é a impossibilidade da reprodução físico-biológico, cultural, científico, estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade.
Neste ponto, entramos no valor do trabalho, do trabalho vivo. O censo comum nos ensina que todo o trabalho é digno. De fato, o ato de trabalhar, onde quer que seja, para se auto-sustentar ou sustentar sua família, é digno. Porém, o trabalho em si não o é, necessariamente. Quando não oferecemos oportunidades, acesso ao conhecimento, ao esporte, ao lazer, à arte e à cultura, à profissionalização, quando não garantimos uma estrutura firme onde o jovem possa caminhar para alçar seus próprios vôos e se desenvolver em toda sua riqueza, negamos o direito à Vida. Esta “Negação da Vida Humana” o leva a trabalhos (in)dignos (termo usado pelo sociólogo Jessé Souza em seu livro “A Ralé Brasileira), trabalhos que limitam, reduzem toda a riqueza humana, todas as possibilidades da vida humana, em simplesmente força braçal. Apoiados em Marx, afirmamos ser este trabalho, quando praticado não por escolha mas pela falta de outras oportunidades, o alienante, injusto, vitimisista, sacrificante. Conseqüência de uma estrutura histórica que nega a vida do trabalhador, que o oprime, desrealiza, empobrece e mata em toda as esferas da afirmação da vida. E porque mata a vida do sujeito humano e produz vítimas, é um sistema perverso, injusto. É exatamente o que chamamos de “Negação da Vida Humana”.
A manutenção de tal realidade vem do instinto da autoconservação de quem detém o poder. Vem da omissão de quem compreende a realidade. O instinto de autoconservação dos que chamamos de “Guardiões do Atraso”, faz com que as ações destes, detentores do poder econômico, político e social, e de todos os outros omissos ou que não enxergam outras formas de viver, sejam voltadas à manutenção do status quo. O medo da mudança faz com estes homens privilegiados em determinadas sociedades, utilizem destes privilégios e do poder a eles atribuído, para impedir que outras possibilidades e oportunidades estejam presentes no cotidiano de suas vítimas. Quando as vítimas se entendem submersas nesse sistema e agem para transformá-lo, cabe aos “Guardiões do Atraso” subjulgar e enfraquecer as ações que visam a mudança da realidade. Nossa forma de viver, o meio em que vivemos, podem ser organizados de outras maneiras. Podemos construir um espaço a favor do desenvolvimento da vida. Podemos nos organizar de uma forma em que mais pessoas comam bem, morem bem, trabalhem bem, vivam bem. Podemos viver a favor da Afirmação da Vida Humana. É apenas uma questão de escolha.
Um abraço,
Tiago Mi.

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