segunda-feira, 23 de julho de 2012

Carta aberta de um são-miguelense ao Governador Geraldo Alckmin

Carta aberta de um são-miguelense ao Governador Geraldo Alckmin



Caro, Governador do Estado de São Paulo.

Não sei do senhor, mas o conservadorismo me assusta. Ele nos ameaça. Imagino como deve ser difícil para o senhor, senhor Governador, trabalhar de forma Ética e transformar uma realidade cruel e desumana como é a do nosso Estado. Por isso te escrevo. Não acreditava que o senhor sabia da existência da minha cidade, pois vivo e te escrevo de um dos municípios com os piores índices de indicadores sociais do seu Estado. Minha região ajuda com muita força a manter o seu Estado, senhor Governador, como um dos mais desiguais do Brasil e da América do Sul, mesmo estando entre os mais ricos. Alguém precisa te informar a respeito, para que possamos reverter essa realidade e o senhor poder se orgulhar de sua administração. Por isso te escrevo, senhor Governador.

Não sei se o senhor teve a oportunidade de conhecer as escolas de minha cidade nesse dia de festas da sua visita. Os colégios são precários. Principalmente os de responsabilidade de sua administração. Faltam tampas nos vasos sanitários, senhor Governador.  Precários são também os salários e a estrutura de trabalho dos nossos professores e diretores de escolas. Mais precária ainda e, como resultado da política educacional imposta, é a qualidade da educação recebida pelos nossos jovens, as principais vítimas da sua incapacidade, senhor Governador, e de nossos políticos, de serem éticos. Nossos jovens fogem das escolas.

Após mais ou menos 50 anos em que o homem pisou na lua, não acredito que eu tenha que explicar aqui, já na segunda década do século vinte e um, para o senhor, a importância das escolas serem dignas e de realizar um forte investimento em educação. Ou tenho? Por aqui, senhor Governador, nem sequer uma Escola Agrícola nós temos. E isso, se tratando de uma cidade apenas agrícola.

Infelizmente ainda realizamos por aqui uma política arcaica. Política da qual incluíram o senhor, infelizmente. Mas como disse, deve ser difícil para o senhor realizar uma política Ética. Essas casas populares estão há seis anos em construção. E apesar da necessidade das famílias em terem um lugar digno para viver, e do direito delas a uma política habitacional qualificada, nossos políticos fizeram questão de adiar a entrega das casas, deixando essas famílias a mercê das interpéries do mundo moderno, para apenas três meses antes da eleição em uma festa da qual o senhor participou. Acredita em nossa política quem quer ser enganado! Não se engane, Governador! Porque para nós, isso não é novidade. Já trouxeram até Padre famoso para subir no palanque junto aos nossos políticos.

Infelizmente, também, esses nossos políticos não têm coragem, ou não têm conhecimento, ou interesse em dizer essas verdades ao senhor. Nem os da situação, nem os da oposição. Salvo raras e honrosas exceções. Em minha cidade, poucos se posicionam diante da realidade e dos absurdos que acontecem. Isso acontece por omissão, por falta de conhecimento ético-social e/ou por covardia mesmo. O resultado, senhor Governador, é que vivemos diante de uma realidade em que mais de 70% da juventude são-miguelense vive sob vulnerabilidade social ou alta vulnerabilidade social, ou seja, sob forte violação de direitos (direitos estes - o senhor deve saber – que é de responsabilidade sua e de seus colegas de trabalho efetivar); vivemos diante de altos índices de gravidez na adolescência (quase o dobro da média de seu Estado), de uma quantidade assustadora de droga exposta à juventude (a cocaína é naturalizada), do número de dependentes químicos bem superior ao que somos capazes de tratar; do aumento insuportável e constante da prostituição infantil, do crack; da ausência de perspectiva de futuro, da existência de trabalho infantil semiescravo, da falta de oportunidades de emprego, dos nossos péssimos índices educacionais, das péssimas qualidades de nossas escolas, da precária estrutura da saúde pública, etc. Sem contar da ausência de esporte, cultura e lazer. Segundo a Fundação Seade, dados oficiais do seu gabinete, em uma escala que vai de um a cinco, quando um representa melhores indicadores sociais do seu Estado, e cinco, piores, estamos no nível cinco. O senhor não percebeu isso, senhor Governador, que aqui é um lugar esquecido política e institucionalmente? Não temos sequer um deputado trabalhando realmente por nós. De vez em quando, em épocas de eleições, alguns mandam umas migalhas parlamentares. Portanto, não se iluda com o semáforo. O senhor não é um dos nossos, que se ilude facilmente. Mas é claro que o senhor sabe que apenas uma realidade como a nossa, ausente de conhecimento, de crítica, de posicionamento, é capaz de manter o senhor aí e nós aqui, nessa situação. Até porque os Guardiões do Atraso dependem da nossa ignorância. O senhor não acha?

Escrevo, portanto, indignado, essa carta ao senhor e à sociedade são-miguelense, que infelizmente aceita tranquilamente essa nossa realidade cruel e desumana que enforca os sonhos e as vidas das nossas crianças e adolescentes. Porque por aqui, senhor Governador, em São Miguel Arcanjo, o conservadorismo nos ameaça de morte.

Um abraço,
Tiago Mi.
Tiago Mi é Mestre em Ciências – Sociologia Política e Ética - USP – e membro do Observatório de Políticas Públicas e Pensamento Latino-Americano também da USP. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS (Associação São-Miguelense de Assistência Social e Saúde), idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil.

  

Uma Análise Sobre São Miguel Arcanjo

Uma Análise Sobre São Miguel Arcanjo

                                                                                                         Parte 1

                                         

                                                                                                   Parte 2 

                                         


quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Estrutura Social é Obra dos Homens - Tiago Mi.


A Estrutura Social é Obra dos Homens

Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP. Foto Duda Corrêa

Nosso conflito começa quando mais de cento e vinte e quatro milhões de sul-americanos espalhados por todo o continente, já no início da segunda década do século vinte e um, são desesperadamente pobres, e mais de cinquenta e um milhões de habitantes dos países da América do Sul são considerados pela Organização das Nações Unidas, como indigentes.
Diante do modo social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto, do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil desprovido de seus direitos, etc. Frente às injustiças e perversidades que determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que em meio ao desalento e à miséria persistente em nosso continente, clamam pela vida.
Em São Miguel Arcanjo as proporções de pobreza são ainda maiores. Segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento Social e do Estado de São Paulo, um terço da população são-miguelense vive na linha da miséria, e outro um terço da população um pouco acima dela.
Como pobreza, entendemos não apenas a questão econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. É a falta de cumprimento das necessidades. A pobreza é a impossibilidade da reprodução físico-biológica, histórico-cultural, científico, estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade. O intelectual brasileiro Milton Santos afirma que o termo ‘pobreza’ não só implica um estado de privação material como também um modo de vida – e um conjunto complexo e duradouro de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura. A medida da pobreza é dada antes de mais nada pelos objetivos que a sociedade determinou para si própria. Trata-se, portanto, de uma categoria política acima de tudo.
Mas não apenas da política partidária e apolítica de posição ou oposição que estamos acostumados. E sim, da responsabilidade de cada ser humano na construção do espaço em que vive. A qualidade do meio em que vivemos e proporcionamos aos nossos jovens, é proporcional a nossa capacidade de pensar, se posicionar e nossa competência em agir. O mais grave problema social produzido pela modernidade, a miséria, produtora e reprodutora de diversas crueldades tais como consumo abusivo de crack, prostituição infantil, trabalho infanto-juvenil semi-escravo, é determinada pela forma que escolhemos para nos organizar como sociedade. Cabe-nos, portanto, determinar outros objetivos para nós. Porque, como diz Paulo Freire, se a estrutura social é obra dos homens, sua transformação será também obras dos homens.

Um abraço,
Tiago Mi.

Tiago Mi é Mestre em Ciências – Sociologia Política e Ética - pela Universidade de São Paulo - USP. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS, idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil em São Miguel Arcanjo – SP.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Somos como Éramos - Tiago Mi


Somos como Éramos


Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP - Foto de Duda Corrêa


Em mil e quinhentos, quando chegaram os portugueses ao Brasil, não encontraram, de imediato, algo que pudesse gerar altos lucros em um curto espaço de tempo. A ilha Brasil ficou ainda adormecida por alguns anos. Adormecida do ponto de vista europeu, pois havia aqui um povo vivo, bonito, que brindava a vida e vivia para viver. Cristóvão Colombo, antes dos portugueses, chegou a escrever para sua majestade, o rei da Espanha, que estes homens e mulheres “amam uns aos outros como amam a si mesmos” (...), “e não há, Vossa Alteza, no mundo, povo mais bondoso do que este”. Sendo assim, continuou Colombo: “Vossa Alteza levará a riqueza que conseguir carregar, e fará quantos escravos quiser”.  De fato foi o que houve em toda a América do Sul.
Logo os portugueses encontraram no Pau-Brasil uma coloração avermelhada que agradava ao mercado europeu. Em pouco tempo, todas as madames e socialites de Londres e redondezas andavam de vermelho pelos salões e eventos sociais da elite européia. Por aqui, no início, os índios retiravam da mata virgem os valiosos troncos e carregavam os navios portugueses de bom grado, em troca de espelhos e especiarias. Com o tempo, começaram a achar estranho. Os portugueses roubaram suas terras – terras estas que eram de todos - e forçaram os índios a fazerem o trabalho do qual não mais se interessavam.  Por muito tempo, esses homens e mulheres, “ex-livres”, encheram de madeira centenas ou milhares de navios e os viram partir para o velho mundo. A depressão tomou conta de um povo que vivia. Os índios simplesmente se deixavam morrer. As índias matavam os recém-nascidos, pois não queriam seus filhos levando uma vida da qual não se vivia para si, e sim, para a ambição e os lucros de outros. Londres se ocupava em produzir a valiosa tinta, e lucrou com isso. O Brasil, esse Brasil que conhecemos, nasce de um povo que teve usurpada sua felicidade, seus sonhos, suas vidas.  
Em dois mil e doze, nossas terras continuam baratas, nossa mão-de-obra também. Não é qualificada, não a qualificamos. É menor o salário de subsistência do que mantê-los como escravos e ter que sustentar suas famílias. Esse foi um dos principais motivos que aboliu a escravidão.
Sentado em alguma praça de nossa cidade, observo “navios estrangeiros”, com rodas, levarem embora nossa madeira. Uma massa jovem carrega toda essa riqueza. As terras não são mais da nossa gente. Estão nas mãos de empresas. Uma massa de trabalhadores não trabalha, não planta, não vive mais para si. Sobrevive. Milhares ou milhões de reais viram as costas para nós todos os anos deixando um rastro de miséria, pobreza, diferença social. Junto a toda a matéria-prima que produzimos e carregamos nos navios movidos a grandes rodas, vão as possibilidades de um futuro digno, nossos sonhos e perspectivas. Somos como éramos.


Um abraço,
Tiago Mi