A Estrutura Social é Obra dos
Homens
Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP. Foto Duda Corrêa
Nosso conflito
começa quando mais de cento e vinte e quatro milhões de sul-americanos
espalhados por todo o continente, já no início da segunda década do século
vinte e um, são desesperadamente pobres, e mais de cinquenta e um milhões de
habitantes dos países da América do Sul são considerados pela Organização das
Nações Unidas, como indigentes.
Diante do modo
social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico,
tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de
liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face
irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto,
do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das
cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do
trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil
desprovido de seus direitos, etc. Frente às injustiças e perversidades que
determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que
em meio ao desalento e à miséria persistente em nosso continente, clamam pela
vida.
Em São Miguel
Arcanjo as proporções de pobreza são ainda maiores. Segundo dados oficiais do
Ministério do Desenvolvimento Social e do Estado de São Paulo, um terço da
população são-miguelense vive na linha da miséria, e outro um terço da
população um pouco acima dela.
Como pobreza, entendemos não apenas a questão
econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução e desenvolvimento
da vida humana. É a falta de cumprimento das necessidades. A pobreza é a
impossibilidade da reprodução físico-biológica, histórico-cultural, científico,
estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o
desenvolvimento da vida concreta do ser
em sua realidade. O intelectual brasileiro Milton Santos afirma que o termo
‘pobreza’ não só implica um estado de privação material como também um modo de
vida – e um conjunto complexo e duradouro de relações e instituições sociais,
econômicas, culturais e políticas criadas para encontrar segurança dentro de
uma situação insegura. A medida da pobreza é dada antes de mais nada pelos
objetivos que a sociedade determinou para si própria. Trata-se, portanto, de
uma categoria política acima de tudo.
Mas não apenas da política partidária e apolítica de
posição ou oposição que estamos acostumados. E sim, da responsabilidade de cada
ser humano na construção do espaço em que vive. A qualidade do meio em que
vivemos e proporcionamos aos nossos jovens, é proporcional a nossa capacidade
de pensar, se posicionar e nossa competência em agir. O mais grave problema
social produzido pela modernidade, a miséria, produtora e reprodutora de
diversas crueldades tais como consumo abusivo de crack, prostituição infantil,
trabalho infanto-juvenil semi-escravo, é determinada pela forma que escolhemos
para nos organizar como sociedade. Cabe-nos, portanto, determinar outros
objetivos para nós. Porque, como diz Paulo Freire, se a estrutura social é obra
dos homens, sua transformação será também obras dos homens.
Um abraço,
Tiago Mi.
Tiago
Mi é Mestre em Ciências – Sociologia Política e Ética - pela Universidade de
São Paulo - USP. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes
que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG
Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS,
idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador
do Movimento Capital Juvenil em São Miguel Arcanjo – SP.

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