quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Estrutura Social é Obra dos Homens - Tiago Mi.


A Estrutura Social é Obra dos Homens

Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP. Foto Duda Corrêa

Nosso conflito começa quando mais de cento e vinte e quatro milhões de sul-americanos espalhados por todo o continente, já no início da segunda década do século vinte e um, são desesperadamente pobres, e mais de cinquenta e um milhões de habitantes dos países da América do Sul são considerados pela Organização das Nações Unidas, como indigentes.
Diante do modo social de vida denominado modernidade, racional, de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico apurados, que assume como própria as pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, surge uma face irracional, presente e exposta nos rostos das crianças de rua, do analfabeto, do sem-teto, do índio e sua cultura subjugada, do negro das periferias das cidades, do faminto, dos velhos sem lugar na sociedade de consumo, do trabalhador do campo explorado, do jovem sem perspectivas de futuro, do civil desprovido de seus direitos, etc. Frente às injustiças e perversidades que determinam a existência negativa das vítimas, surgem vozes, muitas vozes, que em meio ao desalento e à miséria persistente em nosso continente, clamam pela vida.
Em São Miguel Arcanjo as proporções de pobreza são ainda maiores. Segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento Social e do Estado de São Paulo, um terço da população são-miguelense vive na linha da miséria, e outro um terço da população um pouco acima dela.
Como pobreza, entendemos não apenas a questão econômica, mas sim a impossibilidade de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. É a falta de cumprimento das necessidades. A pobreza é a impossibilidade da reprodução físico-biológica, histórico-cultural, científico, estético, místico e ético da vida. A pobreza, não apenas econômica, impede o desenvolvimento da vida concreta do ser em sua realidade. O intelectual brasileiro Milton Santos afirma que o termo ‘pobreza’ não só implica um estado de privação material como também um modo de vida – e um conjunto complexo e duradouro de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura. A medida da pobreza é dada antes de mais nada pelos objetivos que a sociedade determinou para si própria. Trata-se, portanto, de uma categoria política acima de tudo.
Mas não apenas da política partidária e apolítica de posição ou oposição que estamos acostumados. E sim, da responsabilidade de cada ser humano na construção do espaço em que vive. A qualidade do meio em que vivemos e proporcionamos aos nossos jovens, é proporcional a nossa capacidade de pensar, se posicionar e nossa competência em agir. O mais grave problema social produzido pela modernidade, a miséria, produtora e reprodutora de diversas crueldades tais como consumo abusivo de crack, prostituição infantil, trabalho infanto-juvenil semi-escravo, é determinada pela forma que escolhemos para nos organizar como sociedade. Cabe-nos, portanto, determinar outros objetivos para nós. Porque, como diz Paulo Freire, se a estrutura social é obra dos homens, sua transformação será também obras dos homens.

Um abraço,
Tiago Mi.

Tiago Mi é Mestre em Ciências – Sociologia Política e Ética - pela Universidade de São Paulo - USP. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS, idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil em São Miguel Arcanjo – SP.

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