Somos como
Éramos
Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP - Foto de Duda Corrêa
Em mil e quinhentos,
quando chegaram os portugueses ao Brasil, não encontraram, de imediato, algo
que pudesse gerar altos lucros em um curto espaço de tempo. A ilha Brasil ficou
ainda adormecida por alguns anos. Adormecida do ponto de vista europeu, pois
havia aqui um povo vivo, bonito, que brindava a vida e vivia para viver.
Cristóvão Colombo, antes dos portugueses, chegou a escrever para sua majestade,
o rei da Espanha, que estes homens e mulheres “amam uns aos outros como amam a
si mesmos” (...), “e não há, Vossa Alteza, no mundo, povo mais bondoso do que
este”. Sendo assim, continuou Colombo: “Vossa Alteza levará a riqueza que
conseguir carregar, e fará quantos escravos quiser”. De fato foi o que houve em toda a América do
Sul.
Logo os portugueses
encontraram no Pau-Brasil uma coloração avermelhada que agradava ao mercado
europeu. Em pouco tempo, todas as madames e socialites de Londres e redondezas
andavam de vermelho pelos salões e eventos sociais da elite européia. Por aqui,
no início, os índios retiravam da mata virgem os valiosos troncos e carregavam
os navios portugueses de bom grado, em troca de espelhos e especiarias. Com o
tempo, começaram a achar estranho. Os portugueses roubaram suas terras – terras
estas que eram de todos - e forçaram os índios a fazerem o trabalho do qual não
mais se interessavam. Por muito tempo,
esses homens e mulheres, “ex-livres”, encheram de madeira centenas ou milhares de
navios e os viram partir para o velho mundo. A depressão tomou conta de um povo
que vivia.
Os índios simplesmente se deixavam morrer. As índias matavam os recém-nascidos,
pois não queriam seus filhos levando uma vida da qual não se vivia para si, e
sim, para a ambição e os lucros de outros. Londres se ocupava em produzir a
valiosa tinta, e lucrou com isso. O Brasil, esse Brasil que conhecemos, nasce
de um povo que teve usurpada sua felicidade, seus sonhos, suas vidas.
Em dois mil e doze,
nossas terras continuam baratas, nossa mão-de-obra também. Não é qualificada,
não a qualificamos. É menor o salário de subsistência do que mantê-los como
escravos e ter que sustentar suas famílias. Esse foi um dos principais motivos
que aboliu a escravidão.
Sentado em alguma
praça de nossa cidade, observo “navios estrangeiros”, com rodas, levarem embora
nossa madeira. Uma massa jovem carrega toda essa riqueza. As terras
não são mais da nossa gente. Estão nas mãos de empresas. Uma massa de
trabalhadores não trabalha, não planta, não vive mais para si. Sobrevive.
Milhares ou milhões de reais viram as costas para nós todos os anos deixando um
rastro de miséria, pobreza, diferença social. Junto a toda a matéria-prima que
produzimos e carregamos nos navios movidos a grandes rodas, vão as
possibilidades de um futuro digno, nossos sonhos e perspectivas. Somos como
éramos.
Um abraço,
Tiago Mi

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