quarta-feira, 11 de julho de 2012

Somos como Éramos - Tiago Mi


Somos como Éramos


Jardim São Carlos - São Miguel Arcanjo - SP - Foto de Duda Corrêa


Em mil e quinhentos, quando chegaram os portugueses ao Brasil, não encontraram, de imediato, algo que pudesse gerar altos lucros em um curto espaço de tempo. A ilha Brasil ficou ainda adormecida por alguns anos. Adormecida do ponto de vista europeu, pois havia aqui um povo vivo, bonito, que brindava a vida e vivia para viver. Cristóvão Colombo, antes dos portugueses, chegou a escrever para sua majestade, o rei da Espanha, que estes homens e mulheres “amam uns aos outros como amam a si mesmos” (...), “e não há, Vossa Alteza, no mundo, povo mais bondoso do que este”. Sendo assim, continuou Colombo: “Vossa Alteza levará a riqueza que conseguir carregar, e fará quantos escravos quiser”.  De fato foi o que houve em toda a América do Sul.
Logo os portugueses encontraram no Pau-Brasil uma coloração avermelhada que agradava ao mercado europeu. Em pouco tempo, todas as madames e socialites de Londres e redondezas andavam de vermelho pelos salões e eventos sociais da elite européia. Por aqui, no início, os índios retiravam da mata virgem os valiosos troncos e carregavam os navios portugueses de bom grado, em troca de espelhos e especiarias. Com o tempo, começaram a achar estranho. Os portugueses roubaram suas terras – terras estas que eram de todos - e forçaram os índios a fazerem o trabalho do qual não mais se interessavam.  Por muito tempo, esses homens e mulheres, “ex-livres”, encheram de madeira centenas ou milhares de navios e os viram partir para o velho mundo. A depressão tomou conta de um povo que vivia. Os índios simplesmente se deixavam morrer. As índias matavam os recém-nascidos, pois não queriam seus filhos levando uma vida da qual não se vivia para si, e sim, para a ambição e os lucros de outros. Londres se ocupava em produzir a valiosa tinta, e lucrou com isso. O Brasil, esse Brasil que conhecemos, nasce de um povo que teve usurpada sua felicidade, seus sonhos, suas vidas.  
Em dois mil e doze, nossas terras continuam baratas, nossa mão-de-obra também. Não é qualificada, não a qualificamos. É menor o salário de subsistência do que mantê-los como escravos e ter que sustentar suas famílias. Esse foi um dos principais motivos que aboliu a escravidão.
Sentado em alguma praça de nossa cidade, observo “navios estrangeiros”, com rodas, levarem embora nossa madeira. Uma massa jovem carrega toda essa riqueza. As terras não são mais da nossa gente. Estão nas mãos de empresas. Uma massa de trabalhadores não trabalha, não planta, não vive mais para si. Sobrevive. Milhares ou milhões de reais viram as costas para nós todos os anos deixando um rastro de miséria, pobreza, diferença social. Junto a toda a matéria-prima que produzimos e carregamos nos navios movidos a grandes rodas, vão as possibilidades de um futuro digno, nossos sonhos e perspectivas. Somos como éramos.


Um abraço,
Tiago Mi

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