Nós Somos Aqueles
Foto de Duda Corrêa - Passeata do Movimento Capital Juvenil
O pensador esloveno Slavoj Zizek,
depois de escrever por duzentas e tantas páginas sobre a realidade atual do
planeta, dos interesses por traz das decisões dos que detém o poder político e
econômico das nações e corporações mundiais, e de buscar caminhos para
realizarmos a transformação necessária do mundo moderno que submete mais dois
bilhões e meio de pessoas a situações precárias de vida, escreveu: Nós somos aqueles por quem estávamos
esperando.
Como a vida acontece nas cidades,
é nas cidades que transformações necessárias devem acontecer. Mas por aqui nós
ainda somos aqueles que mantêm as coisas
como são. O conservadorismo nos ameaça. O Brasil e São Miguel Arcanjo seguem
os padrões constatados pelo filósofo Michel Foucault, em seu livro “Vigiar e Punir”, quando comenta que a
sociedade moderna é perpassada por “interpretações de fachada”, visíveis e
perceptíveis por todos, que ele chama de conteúdos “manifestos”, existindo
precisamente para esconder as “interpretações escondidas”, invisíveis e opacas
para todos, que ele chama de conteúdo “latente”. Isto é, o senso comum tem uma
ideia da nossa realidade. Ideia essa que esconde as reais causas dos nossos
problemas, ou escondem os próprios problemas.
Os conservadores são-miguelenses
espalhados por todas as esferas da sociedade se baseiam nessas interpretações
de fachada para definir suas ações, suas opiniões e seus votos. Sem compreender
as causas reais dos nossos problemas e sem enxergar os problemas camuflados,
ajudam a nos manter em uma realidade em que, segundo o Ministério de
Desenvolvimento Social e Combate à Fome nos alerta, é caracterizada por uma
alta participação da população extremamente pobre. Em São Miguel Arcanjo, o
índice de Extrema Pobreza é o dobro da média de Extrema Pobreza do Estado de
São Paulo (CENSO/2010). Mas infelizmente, para nós, a pobreza é naturalizada.
Tão naturalizada, que nos parece impossível permitir com que a maioria da população
são-miguelense viva bem, coma bem, more bem, trabalhe bem.
Outras questões tão ou mais
graves quanto essa mantém as sociedades como estão. A manutenção da realidade
vem também do instinto de autoconservação
de quem detém o poder, aliada à omissão de quem compreende a realidade. O
instinto de autoconservação dos que
chamamos de “Guardiões do Atraso”, faz com que as ações destes, detentores do
poder econômico, político e social, e de todos os outros omissos ou que não
enxergam outras formas de viver, sejam voltadas à manutenção do status quo. O medo da mudança faz com
estes homens privilegiados em determinadas sociedades, utilizem destes
privilégios e do poder a eles atribuído, para impedir que outras possibilidades
e oportunidades estejam presentes no cotidiano de suas vítimas. Quando as
vítimas se entendem submersas nesse sistema e agem para transformá-lo, cabe aos
“Guardiões do Atraso” subjulgar e enfraquecer as ações que visam a mudança da
realidade. Estes também se utilizam do poder que muitas vezes eles próprios se
atribuem, para ameaçar, amedrontar e perseguir aqueles que se posicionam de
forma contrária ou diferente a eles, sem levar em consideração um dos fundamentos
mais sagrados e necessários da democracia: a liberdade de expressão.
A perseguição política, a ameaça
do poder a posicionamentos divergentes ou críticos é crime grave. Em período
eleitoral, é crime gravíssimo. A democracia permite que nos posicionemos. A
realidade atual exige. Trata-se de um dever Ético e uma obrigação moral deixarmos
de ser aqueles que mantêm as coisas como
são, e nos transformarmos naqueles a
quem estávamos esperando, naqueles que farão a diferença. Mas como disse ao
Governador em carta aberta, o conservadorismo, aqui, nos ameaça de morte.
Um
abraço,
Tiago
Mi.
Mestre
em Ciências pela Universidade de São Paulo – Sociologia Política e Ética (USP).
Área de Concentração: Práticas Políticas e Relações Internacionais. Membro do
Observatório de Estudos de Políticas Públicas e Pensamento Latino-Americano da
USP e do Núcleo Revitalizando Culturas da Universidade do Sul de Santa Catarina. Possui treze anos de
experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É
sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em
Florianópolis – SC, Presidente do ASASS (Associação São-Miguelense de
Assistência Social e Saúde), idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte
Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil.