quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Nós Somos Aqueles

Nós Somos Aqueles


Foto de Duda Corrêa - Passeata do Movimento Capital Juvenil

O pensador esloveno Slavoj Zizek, depois de escrever por duzentas e tantas páginas sobre a realidade atual do planeta, dos interesses por traz das decisões dos que detém o poder político e econômico das nações e corporações mundiais, e de buscar caminhos para realizarmos a transformação necessária do mundo moderno que submete mais dois bilhões e meio de pessoas a situações precárias de vida, escreveu: Nós somos aqueles por quem estávamos esperando.

Como a vida acontece nas cidades, é nas cidades que transformações necessárias devem acontecer. Mas por aqui nós ainda somos aqueles que mantêm as coisas como são. O conservadorismo nos ameaça. O Brasil e São Miguel Arcanjo seguem os padrões constatados pelo filósofo Michel Foucault, em seu livro “Vigiar e Punir”, quando comenta que a sociedade moderna é perpassada por “interpretações de fachada”, visíveis e perceptíveis por todos, que ele chama de conteúdos “manifestos”, existindo precisamente para esconder as “interpretações escondidas”, invisíveis e opacas para todos, que ele chama de conteúdo “latente”. Isto é, o senso comum tem uma ideia da nossa realidade. Ideia essa que esconde as reais causas dos nossos problemas, ou escondem os próprios problemas.

Os conservadores são-miguelenses espalhados por todas as esferas da sociedade se baseiam nessas interpretações de fachada para definir suas ações, suas opiniões e seus votos. Sem compreender as causas reais dos nossos problemas e sem enxergar os problemas camuflados, ajudam a nos manter em uma realidade em que, segundo o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome nos alerta, é caracterizada por uma alta participação da população extremamente pobre. Em São Miguel Arcanjo, o índice de Extrema Pobreza é o dobro da média de Extrema Pobreza do Estado de São Paulo (CENSO/2010). Mas infelizmente, para nós, a pobreza é naturalizada. Tão naturalizada, que nos parece impossível permitir com que a maioria da população são-miguelense viva bem, coma bem, more bem, trabalhe bem.

Outras questões tão ou mais graves quanto essa mantém as sociedades como estão. A manutenção da realidade vem também do instinto de autoconservação de quem detém o poder, aliada à omissão de quem compreende a realidade. O instinto de autoconservação dos que chamamos de “Guardiões do Atraso”, faz com que as ações destes, detentores do poder econômico, político e social, e de todos os outros omissos ou que não enxergam outras formas de viver, sejam voltadas à manutenção do status quo. O medo da mudança faz com estes homens privilegiados em determinadas sociedades, utilizem destes privilégios e do poder a eles atribuído, para impedir que outras possibilidades e oportunidades estejam presentes no cotidiano de suas vítimas. Quando as vítimas se entendem submersas nesse sistema e agem para transformá-lo, cabe aos “Guardiões do Atraso” subjulgar e enfraquecer as ações que visam a mudança da realidade. Estes também se utilizam do poder que muitas vezes eles próprios se atribuem, para ameaçar, amedrontar e perseguir aqueles que se posicionam de forma contrária ou diferente a eles, sem levar em consideração um dos fundamentos mais sagrados e necessários da democracia: a liberdade de expressão.

A perseguição política, a ameaça do poder a posicionamentos divergentes ou críticos é crime grave. Em período eleitoral, é crime gravíssimo. A democracia permite que nos posicionemos. A realidade atual exige. Trata-se de um dever Ético e uma obrigação moral deixarmos de ser aqueles que mantêm as coisas como são, e nos transformarmos naqueles a quem estávamos esperando, naqueles que farão a diferença. Mas como disse ao Governador em carta aberta, o conservadorismo, aqui, nos ameaça de morte.

Um abraço,

Tiago Mi.



Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo – Sociologia Política e Ética (USP). Área de Concentração: Práticas Políticas e Relações Internacionais. Membro do Observatório de Estudos de Políticas Públicas e Pensamento Latino-Americano da USP e do Núcleo Revitalizando Culturas da Universidade do Sul de Santa Catarina. Possui treze anos de experiência com crianças e adolescentes que vivem sob a violação de direitos. É sócio-fundador e Vice-Presidente da ONG Ação Cultural Terra Pura em Florianópolis – SC, Presidente do ASASS (Associação São-Miguelense de Assistência Social e Saúde), idealizador e coordenador do Projeto Faz Parte Desse Nosso Carnaval e sócio-fundador do Movimento Capital Juvenil.


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