quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Controle - Tiago Mi


Controle




Controle. Somos aficionados por ele. Controlamos nossos jovens nas escolas. Tentamos controlá-los nas ruas com câmeras e com nosso moralismo. Aplicamos penas quando “saem” dos caminhos que achamos serem os “corretos”. Julgamos suas ações quando parecem predatórias, e nos esforçamos para puni-los. Colocamos placas em nossas praças e Centro de Eventos: Proibido andar de bicicleta, skate, patins, etc. Escrevemos também, ali mesmo, no banheiro, “Sorria, você está sendo filmado”. Alguns tentam diminuir a idade penal para podermos punir com maior rigor os jovens de dezesseis anos. Aqueles mesmos que já são punidos desde que nasceram, por terem nascido, por azar, em nossa sociedade.

Quando um jovem, por exemplo, de quatorze anos, que vive sob a responsabilidade do Estado (Poder Público), - porque por algum motivo é impossibilitado de viver com a família -, dá problemas, o enviamos à Fundação Casa. Nós o punimos. Mas não punimos os responsáveis, próprio Poder Público, por não cumprirem com seu dever de proporcionar os direitos que aquele mesmo garoto tem garantido em Constituição. Controlamos e punimos os que não têm forças para se defenderem. Perdemos toda a nossa energia controlando os que são incapazes de gerar grandes danos à sociedade individualmente, e não controlamos aqueles dois ou três que administram mais de quarenta milhões de reais por ano, dinheiro nosso, dinheiro público, permitindo que façam o que acham que devem fazer com toda a nossa riqueza. Não temos câmeras em salas de reuniões que definem como será utilizado nosso dinheiro da Saúde Pública. Nem nas salas de licitações, ou nas reuniões que decidem como “gastaremos” mais de um milhão e quinhentos mil reais por ano com a nossa Merenda Escolar.

O resultado de focarmos todo nosso potencial controlador e conservador em “onde o muleque pode andar de skate”, ou “olha a música que eles ouvem”, é a presença em nossa cidade de “empresas” e “ONGs”, denunciadas pelo Ministério Público por fazerem parte da Máfia da Merenda, e por desviarem dinheiro público destinado à saúde (nosso dinheiro), para campanhas políticas e para os bolsos de alguns “Senhores”. Dinheiro esse, sujo de sangue. Bolsos sujos de sangue. Férias na praia sujas de sangue. Sangue do seu pai que morreu por falta de um atendimento médico decente, por falta de médicos. Sangue da sua espera para ser atendido. Sangue do seu desespero por ter a saúde de seu filho e de sua filha dependentes da nossa Saúde Pública.

Nós, preocupados em controlar e punir nossos jovens, permitimos tranquilamente que o dinheiro público (nosso dinheiro), que deveria ser investido na alimentação das nossas crianças e em nosso atendimento médico, seja desviado por e para quadrilhas da pior estirpe de criminosos, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo e a Polícia Federal denunciaram.

Nossas crianças e adolescentes precisam ser educados, fundamentado em uma educação emancipadora, formadora de sujeitos, éticos, criadores, contestadores, utópicos. Uma educação que seja desenvolvida com eles, e não para eles. Para assim, talvez, aprendermos também tudo o que eles podem nos ensinar. E com eles, fazer a transformação necessária na sociedade e construir um espaço do qual possamos um dia nos orgulhar. Como diz Confúcio: Eduque as crianças e não precisarás castigar os homens. Com relação aos jovens, acredito que seja por aí que nossas energias devam se voltar.

Quanto ao controle, aí sim, devemos focar em nossos políticos, empresários e ONGs que atuam com dinheiro público. Esses devem receber o rigor da lei, o rigor das punições. Esses devem ser os nossos vigiados. São eles quem devem sorrir por estarem sendo filmados, e quem sabe escrevermos em uma placa e pendurarmos nos locais de decisões do poder: Proibido desviar dinheiro público.

Um feliz Natal,
Tiago Mi.