Controle
Controle. Somos aficionados por ele. Controlamos nossos
jovens nas escolas. Tentamos controlá-los nas ruas com câmeras e com nosso
moralismo. Aplicamos penas quando “saem” dos caminhos que achamos serem os
“corretos”. Julgamos suas ações quando parecem predatórias, e nos esforçamos
para puni-los. Colocamos placas em nossas praças e Centro de Eventos: Proibido
andar de bicicleta, skate, patins, etc. Escrevemos também, ali mesmo, no
banheiro, “Sorria, você está sendo filmado”. Alguns tentam diminuir a idade
penal para podermos punir com maior rigor os jovens de dezesseis anos. Aqueles
mesmos que já são punidos desde que nasceram, por terem nascido, por azar, em
nossa sociedade.
Quando um jovem, por exemplo, de quatorze anos, que vive sob
a responsabilidade do Estado (Poder Público), - porque por algum motivo é
impossibilitado de viver com a família -, dá problemas, o enviamos à Fundação
Casa. Nós o punimos. Mas não punimos os responsáveis, próprio Poder Público,
por não cumprirem com seu dever de proporcionar os direitos que aquele mesmo
garoto tem garantido em Constituição. Controlamos e punimos os que não têm
forças para se defenderem. Perdemos toda a nossa energia controlando os que são
incapazes de gerar grandes danos à sociedade individualmente, e não controlamos
aqueles dois ou três que administram mais de quarenta milhões de reais por ano,
dinheiro nosso, dinheiro público, permitindo que façam o que acham que devem
fazer com toda a nossa riqueza. Não temos câmeras em salas de reuniões que
definem como será utilizado nosso dinheiro da Saúde Pública. Nem nas salas de
licitações, ou nas reuniões que decidem como “gastaremos” mais de um milhão e
quinhentos mil reais por ano com a nossa Merenda Escolar.
O resultado de focarmos todo nosso potencial controlador e
conservador em “onde o muleque pode andar de skate”, ou “olha a música que eles
ouvem”, é a presença em nossa cidade de “empresas” e “ONGs”, denunciadas pelo
Ministério Público por fazerem parte da Máfia da Merenda, e por desviarem dinheiro
público destinado à saúde (nosso dinheiro), para campanhas políticas e para os
bolsos de alguns “Senhores”. Dinheiro esse, sujo de sangue. Bolsos sujos de
sangue. Férias na praia sujas de sangue. Sangue do seu pai que morreu por falta
de um atendimento médico decente, por falta de médicos. Sangue da sua espera
para ser atendido. Sangue do seu desespero por ter a saúde de seu filho e de sua
filha dependentes da nossa Saúde Pública.
Nós, preocupados em controlar e punir nossos jovens,
permitimos tranquilamente que o dinheiro público (nosso dinheiro), que deveria
ser investido na alimentação das nossas crianças e em nosso atendimento médico,
seja desviado por e para quadrilhas da pior estirpe de criminosos, segundo o
Ministério Público do Estado de São Paulo e a Polícia Federal denunciaram.
Nossas crianças e adolescentes precisam ser educados,
fundamentado em uma educação emancipadora, formadora de sujeitos, éticos,
criadores, contestadores, utópicos. Uma educação que seja desenvolvida com eles, e não para eles. Para assim, talvez, aprendermos também tudo o que eles
podem nos ensinar. E com eles, fazer a transformação necessária na sociedade e
construir um espaço do qual possamos um dia nos orgulhar. Como diz Confúcio:
Eduque as crianças e não precisarás castigar os homens. Com relação aos jovens,
acredito que seja por aí que nossas energias devam se voltar.
Quanto ao controle, aí sim, devemos focar em nossos
políticos, empresários e ONGs que atuam com dinheiro público. Esses devem
receber o rigor da lei, o rigor das punições. Esses devem ser os nossos
vigiados. São eles quem devem sorrir por estarem sendo filmados, e quem sabe
escrevermos em uma placa e pendurarmos nos locais de decisões do poder:
Proibido desviar dinheiro público.
Um feliz Natal,
Tiago Mi.

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