segunda-feira, 25 de março de 2013

Sinto Falta dos Chicotes - Tiago Mi


Sinto Falta dos Chicotes

Tela inacabada de Marcos Fernandes

Não há chicotes. O ambiente é rico, cheio de vida, de água, de mata. Ao lado do jovem de uns vinte ou vinte e um anos, passa constantemente uma daquelas caminhonetes robustas, quatro por quatro, imponentes. O vidro é escuro. Não se enxerga o que acontece ali dentro. Mas sabe-se que há alguém no ar condicionado (o calor é insuportável), de olho no que está acontecendo do lado de fora.

Distante uma eternidade de toda a riqueza natural e material que o cerca, o garoto, sem saber quem o escravizou, segue com seu pensamento em casa, em suas princesas chorando de fome, vulneráveis, indefesas. Só assim consegue forças para caminhar, chegar ali, perto das seis da manhã, e ali seguir até o final da tarde.

O sol ao se pôr oferece uma das visões mais belas e sublimes da natureza, mas é difícil sentir prazer ao olhá-lo. As mãos e os braços estão dormentes. As formigas são famintas e têm um veneno feroz aos humanos. Na verdade, as formigas o percebem mais como humano do que aqueles que estão no ar condicionado, “observando” o desenrolar do seu trabalho.

Para ele, os Direitos Humanos não passam de um mero Discurso de Ética proposto pela Organização das Nações Unidas há alguns anos. Discurso que insiste em não se tornar prática, e que o garoto tomou conhecimento em um movimento social do qual participa em sua cidade. Nas horas vagas, esperançoso e convicto, luta ao lado de muitos para efetivá-los. Não só para ele, mas para todos seus pares. Ele sabe que a modernidade é cruel e desumana como dizem nas reuniões em que participa, pois sente na pele a face irracional de um mundo comandado pela ambição de alguns e ignorância de muitos.

Mas sem escolhas, o jovem adulto segue para colheita. Precisa sobreviver e sustentar sua pequena filha, uma princesa, linda como a mãe, que vive em um pequeno barraco. E não basta apenas o dinheiro para a janta de hoje. Ele se preocupa também com o inverno que logo vem. Lá, as safras já terão acabado, e não será mais necessária sua força para encher os sacos e sacos de batata que saem em enormes quantidades da terra. Quanto mais pesado o saco, mais ele recebe. Por isso, muitas vezes nem almoça. Não pode perder tempo. O inverno vai chegar, e a água de sua casa não é quente. Sua princesa, sorridente como todas as crianças, passa frio.

Para ter forças enquanto carrega quilos de batata nas costas, lembra de sua infância. Do tempo em que sua mãe era viva e, sem ter com quem ou aonde deixá-lo, o levava para a lavoura. Foi naquele tempo que aprendeu a colher a uva. Queria ajudar sua mãe a encher as caixas. Quanto mais caixas, mais recebia pelo pequeno valor destinado ao trabalhador de uma uva que não era dela, mas de um outro cidadão, muito respeitado, do qual ela não conhecia e enxergava apenas de relance dentro de uma outra imponente caminhonete da época que circulava pela plantação.

O pai, infelizmente o rapaz não conheceu. Quando sua mãe morreu sem explicações dos médicos da nossa saúde pública, não pensou duas vezes: com apenas treze anos abandonou a escola para alívio de alguns professores e diretores. Precisava sobreviver. E não foi fácil. Na verdade, o que mais o surpreende é estar vivo, apesar de tudo. Chegou a vender droga para garantir alguns almoços. Relembra que foi a única vez em que foi percebido pela sociedade que o rodeia. Queriam-no preso.

Foi quando, por força de Deus (segundo os pastores o explicam), conheceu a menina que agora é mãe de sua princesa. Decidiu, então, levar uma vida “digna” de trabalhador. E segue tentando. Mas como levar uma vida digna de trabalhador em uma cidade cruel, desumana e preconceituosa, em que os senhores respeitados são esses que estão no ar condicionado, e que muitas vezes vemos tomando as decisões políticas mais importantes para nossa cidade? Decisões estas que deveriam mudar as estruturas que o escraviza, mas que ao contrário, fortalecem a escravidão, imposta e invisível.

Enquanto não entrar em desespero, e não sei como não entra, e não invadir um comércio de um bom cidadão para garantir o almoço de suas princesas, permanecerá invisível. Do contrário, se invadir, roubar alguns reais e for finalmente notado, esse bom cidadão atacado que paga seus impostos e vota nos senhores do ar condicionado, se chocará, e exigirá da polícia e das autoridades ações efetivas. E essas autoridades ouvirão o bom cidadão, e aumentarão a repressão aos marginais, e suas palavras encontrarão eco nas redes sociais e em colunistas, grandes velhos moralistas, de jornais. E encherão nossas praças de câmeras, e investirão nosso dinheiro público em controle público, enquanto deixamos de lado o investimento na emancipação do jovem. Assim, nossos vereadores continuarão sobrevivendo e se reelegendo a base de caronas e favores aos seus eleitores, e o nosso executivo seguirá ouvindo e sendo aplaudido pelos bons cidadãos que pagam seus impostos e que podem aproveitar nossas festas milionárias em seus camarotes. E assim tudo ficará certo, na miopia causada pela ignorância do nosso tempo.

Quanto ao garoto preso (até que em fim!), a hipocrisia anuncia o dever cumprido. Porém, não poderá mais colher a batata, ou a uva, tampouco será capaz de carregar a madeira das empresas que tomam conta de nossa cidade. Mas não há com que se preocupar. Como ele, há milhares, fora das escolas, necessitando sobreviver. Mão de obra escrava não falta em uma cidade cruel, desumana, preconceituosa e politiqueira. Invisíveis, eles seguirão colhendo nossa riqueza, em um ambiente rico, observados por nossos senhores respeitados em seus grandes carros imponentes, mantidos por nossos grandes políticos discursadores. Só sinto a falta do chicote.

Um abraço,
Tiago Mi.

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